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6 janeiro 2016
  Saúde
Texto de Filipe Mendonça Fotografia de Pedro Loureiro Fotografia de Pedro Loureiro Texto de Filipe Mendonça
Oceano de esperança

​​​​​Parece um conto, mas é a vida. Luísa descobriu aos 26 anos que tinha Esclerose Múltipla. Contra o fatalismo, meteu-se num barco e decidiu renascer. Uma inspiração.​

2 de Agosto de 2004. Luísa chega sozinha ao Hospital da Universidade de Coimbra. Medo. Ansiedade. Às costas, anos de sofrimento associado a sintomas que nunca entendeu. Deixou de andar. Perdeu parte da visão. Sentia-se muito cansada e com o corpo dormente. Chega a Coimbra para receber o diagnóstico. O mundo desaba. Ergue-se e volta a desabar. Esclerose Múltipla. «Deixei de ouvir a médica. Não me lembro de ter perguntado se tinha cura». Tem tratamento. Na retina, aos 26 anos, a imagem da «doença da cadeira de rodas».

2 de Agosto de 2014. Luísa chega ao cais de partida, junto ao Tejo, em Lisboa, acompanhada por familiares e amigos. Traz o coração livre. Confiante. Cheio.

Nos braços, o desejo de deixar a doença em terra e começar tudo de novo. É assim que se faz ao vento e embarca rumo a Boston, a bordo do veleiro “Oceans of Hope” (Oceanos de Esperança), na companhia de quatro jovens que conhecem aquilo que sente. «Passei de um estado de prisão para um estado de profunda liberdade. De uma solidão extrema para um mundo rodeada de gente importante. Saí de Lisboa doente e cheguei a Boston pessoa». É assim que Luísa resume os 37 dias que passou no mar. Uma vida inteira. O suspiro da única portuguesa que participou na volta ao mundo a bordo de uma casca de noz tripulada por doentes com Esclerose Múltipla.

De Coimbra a Boston há dez anos de marés e várias luas. «Percebi que uma coisa é aquilo que temos. Outra, bem diferente, é aquilo que somos. O que me define é a atitude».

Depois de um tempo em que se escondeu do mundo, Luísa quis inspirar, destruir os mitos que mascaravam a «doença da cadeira de rodas» e sorrir. «O segredo disto tudo foi ter descoberto a força da gratidão. Nas piores alturas, quando não conseguia andar, nem comer, nem levantar a cabeça de tão cansada que estava, comecei a olhar para o lado e a ver o que me rodeava. Percebi que tinha uma família, amigos, comida na mesa, um tecto… Foi aí que me deu o clique, a gratidão». Sorri.

Luísa conversa como quem abraça. Quer contar tudo. Ouvir. Sentir o que há para sentir. «Durante muitos anos a minha vida fui uma montanha russa. Comecei com os sintomas aos 14 anos e não sabia o que tinha. Não conseguia associar umas coisas às outras. Passei 12 anos numa luta desigual contra o desconhecido, a tentar perceber o que se passava comigo». Aquilo que a mantinha ligada ao mundo era a bola de basquetebol, os pavilhões e a equipa, mas até isso começou a perder o sentido. «Num dia era boa atleta, no outro não conseguia mexer-me. Num dia era boa aluna, no dia seguinte não conseguia fazer coisas básicas. Cresci a moldar a minha personalidade a esta instabilidade».

É a isto que Luísa chama de «montanha russa»: uma doença crónica e degenerativa que afecta o sistema nervoso central e em que o sistema imunológico, por causas ainda desconhecidas, “se ataca” a si mesmo.

Em Portugal, segundo dados divulgados pela Sociedade Portuguesa de Esclerose Múltipla (SPEM), estima-se que mais de oito mil pessoas vivam com a doença. Em termos mundiais, a estimativa ronda dois milhões e meio de casos diagnosticados.

Nas margens da ria de Aveiro, cidade onde cresceu, Luísa vai salgando a conversa. Dá sede. Vontade de saber mais e mais de uma vida que parece sempre nova a cada frase, cada desafio, como naquele dia em que calçou os ténis. «Nunca pensei correr. Não gosto de correr por correr. Quem diria que conseguiria fazer 10 km». É um pé à frente do outro, como na vida. «Quero que os pais de um jovem com Esclerose Múltipla olhem para mim e respirem fundo. Quero que percebam que o filho não está condenado a uma cadeira de rodas».

A corrida é só uma boa metáfora. O resto é o dia-a-dia de Luísa, a mulher que quis mudar a cara de doença e acabou a transformar-se, ela própria, numa espécie de cartaz.

É missão. Juntou-se a vários grupos de doentes, como o “Gangue da Esclerose Múltipla” e os “Amigos de Aveiro”. Foi neles que encontrou a força para recomeçar e é através deles que quer continuar a dar a mão a quem chega. Não satisfeita, a antiga atleta foi à procura de um emprego onde pudesse colocar a sua experiência ao serviço da sociedade. Chegou a técnica de comunicação na SPEM e concretizou outro sonho: construir uma equipa. «Um senhor teve a ideia de criarmos uma camisola que pudesse servir de inspiração. Foi assim que nasceu a Mágica», explica com a dita encarnada vestida. Hoje, mais de 500 pessoas correm pela causa. Os números são só isso: dos 30 mil quilómetros já acumulados, 1.000 foram corridos por doentes. Mágico!

Janeiro de 2016. Luísa tem as malas à porta, aos 38 anos. Está de partida para o aeroporto, rumo à Dinamarca. 
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O barco da esperança que a embalou até Boston foi, afinal, o barco do amor. Quase dois anos depois de cruzar o oceano, Luísa solta as amarras, deixa a ria, o sol, os amigos e a família, e parte para aquele cantinho frio, lá longe, a norte. Diagnóstico: Apaixonada. «– Já sabes o que vais fazer lá? – Ainda não. Bem, sim, sei… vou viver!»​​​
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