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15 abril 2016
Texto de Sónia Balasteiro Fotografia de Pedro Loureiro Fotografia de Pedro Loureiro Texto de Sónia Balasteiro
O samurai solidário

Aos sete anos, quando pisou o dojo pela primeira vez, iniciou um caminho de autoconhecimento. Conquistou uma medalha olímpica, mas conheceu destinos ainda maiores do que Sidney. A liberdade própria e o amor aos outros. Hoje tem uma escola para ensinar crianças a serem campeãs verdadeiras, não só no judo como na vida.

Revista Saúda - O judo é muito mais do que uma modalidade desportiva. 
Nuno Delgado - Sim. Há dois princípios essenciais inerentes à palavra “judo”. O primeiro, “ju”, refere-se à suavidade: é o flexível que vence o duro, o forte. O segundo, o “do”, tem uma simbologia muito oriental, ligada ao caminho que fazemos ao longo da vida para nos aperfeiçoarmos. O judo foi beber estes princípios às práticas marciais do Japão antigo, dos samurais. 

RS - Depreende-se dessa explicação um sentido de equilíbrio… 
ND - Para fazer uma luta é preciso ter energia, sermos saudáveis e, simultaneamente, é necessário haver um equilíbrio mental, temos de saber canalizar a nossa concentração e atenção para aquilo que é fundamental. Tudo isto tem de ser combinado com a aprendizagem das técnicas. 

RS - Diria que nos forma como seres humanos?
ND - As técnicas de judo têm um princípio fundamental, que é “ceder para vencer”, ou seja, usar a força do outro. O outro maior que podemos enfrentar é a adversidade da vida. Se soubermos usar essa adversidade em nosso benefício, podemos, por um lado, ser melhores praticantes de judo, mas, acima de tudo, ser melhores pessoas no dia-a-dia. 

RS - Tem outros cuidados consigo?
ND - Sim. Eu procuro ser aquilo em que acredito. Como herança dos princípios dos samurais, há um conjunto de regras que deveríamos seguir no dia-a-dia. Ter uma vida regrada, acordar cedo e respeitar o sono, treinar todos os dias, ter uma alimentação cuidada, ter um espírito tranquilo, ter uma atitude positiva. O nosso espírito e o nosso físico, que são um, têm de ser preservados, porque são um templo.
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RS - As farmácias ajudam a preservar esse templo?
ND - As farmácias estão lá para ajudar, têm o espírito dos campeões. E, hoje em dia, são quase parte da família. Quando a minha filha está com tosse, o primeiro filtro é o farmacêutico, que sugere o que tomar ou nos aconselha a ir ao médico. E já sinto a farmácia a aproximar-se daquilo que defendo que é a saúde através do exercício, físico ou mental. 

RS - Toma suplementos?
ND - Desde o tempo em que fiz desporto, aproveitei os benefícios dos suplementos. Os suplementos são isso mesmo: suplementos. Mas sou contra a complementação, usar produtos que são sintéticos para fazer parte da nossa alimentação.

RS - Os hábitos saudáveis foram-lhe incutidos desde cedo?
ND - Sim, comecei a praticar judo aos 7 anos. Foi um convite dos meus familiares e eu, como gostava de fazer desporto, fui experimentar. Vesti o fato de treino, fui para o dojo e, como num amor à primeira vista, senti que estava num sítio especial. ​

RS - O que o tornava especial?
ND - Eu era uma criança muito energética, se calhar aquilo que hoje se chamaria uma criança com hiperactividade, e estar num espaço onde podemos libertar as energias todas e fazer qualquer palhaçada sem nos aleijarmos foi muito importante. E ter ali um mestre, alguém em quem depositava a confiança e era quem impunha as regras, também.

RS - Foi determinante ir para o estrangeiro mais tarde?
ND - Acho fundamental sairmos do nosso meio. Com 11, 12 anos, comecei a viajar. Até ao ponto em que senti necessidade de representar outros clubes fora de Portugal, embora nunca tenha deixado de viver em Portugal. 

RS - Qual a importância dos Jogos Olímpicos de Sidney? 
ND - Foi o concretizar de um sonho de criança e isso teve uma importância grande: olhar para trás e poder dizer que tinha determinados sonhos e alguns já se cumpriram. Acho que os Jogos Olímpicos foram o patamar mais alto do meu desafio de autoconhecimento. 

RS - Ser considerado o melhor judoca de sempre é uma responsabilidade?
ND - Não me considero o melhor, haverá sempre melhores. A responsabilidade que sinto é, em vez de ficar a olhar para baixo para ver se ninguém me tira o lugar, ir lá abaixo e ajudar os mais novos, fazer parte de conquistas ainda maiores.

RS - Como foi deixar o judo de competição?
ND - Foi outro desafio. Eu tinha um sonho, que era chegar aos meus limites e o limite máximo que defini foi participar nos Jogos Olímpicos. Depois disso, senti que era possível ir mais além e pensei: “Acho que posso ser campeão olímpico”. Não pelo título em si, mas porque julgo que é o desafio máximo do autoconhecimento.
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RS - Mas lesionou-se.
ND - Tive um percurso complicado e, já em Atenas, parti a mão, antes da competição. Vi o sonho desmoronar-se. Tentei perceber qual seria o meu próximo caminho. ​

RS - Foi quando se decidiu pelo ensino?
ND - Pensei: “o que é que eu posso fazer que me preencha tanto como aquilo que fiz até agora?”. A resposta surgiu com a criação de um projecto de vida, a que chamei Escola de Judo Nuno Delgado. A partir de 2005 foi-se concretizando este projecto com a missão de formar campeões para a vida.

RS - Que também é um projecto de responsabilidade social.
ND - Sim. Era preciso criar condições para aqueles que não tinham acesso ao programa, fosse por limitações físicas ou cognitivas, fosse por necessidade financeira.

RS - Há pouco falámos de crescimento saudável. As suas filhas vão praticar judo?
ND - A mais velha, de sete anos, já pratica, e a mais nova, de quatro meses, já tem o judogi. Eu gostava que soubessem o que é o respeito, o autocontrolo e, acima de tudo, o que é ser campeão. Não é ganhar medalhas, é ser um campeão para a vida. É ser solidário. A partir daí, quero que elas sejam felizes.

RS - Ainda há sonhos por cumprir?
ND - Sempre. Os sonhos podem ser cuidar das filhas, estar com os amigos num ambiente mais tranquilo, sem a exaltação dos objectivos que a sociedade nos impõe. O meu sonho é ter liberdade de fazer aquilo de que gosto, com responsabilidade, mas como eu gosto. A liberdade começa com as nossas emoções. Quando nos libertamos do medo, estamos no caminho para ser livres.​