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15 junho 2016
Texto de Carlos Enes        Ilustração de Mantraste           Texto de Carlos Enes        Ilustração de Mantraste          
O rapaz que era demasiado rápido

​​​​​​​​​​​​​​​​​​Marco atingia o orgasmo depressa demais. A ejaculação precoce minou uma relação de cinco anos. Uma nova namorada ajudou-o a sair do poço. Fez psicoterapia e hoje sente-se curado. Com a sua história espera encorajar outros homens a vencer o medo de procurarem ajuda.

​Às vezes um ser humano nem se apercebe do sofrimento que pode causar a quem mais gosta. Marco fazia 21 anos e sentia-se eufórico. Tinha recebido o primeiro salário, como empregado de Verão num restaurante de praia. Ia festejar com os amigos na primeira casa a que podia chamar dele, alugada a meias com a namorada. Portugal já estava eliminado, mas era noite de jogo grande no Mundial do Brasil. Cada um trouxe carnes para o churrasco e muitas garrafas de cerveja, vinho e vodka. Vanessa ofereceu o bolo de aniversário. Era de chocolate, mas tinha a forma de um coração gigante, parecia do dia dos namorados.  Raúl, que põe música nas festas da faculdade, trouxe o laptop dele e fez de DJ a noite inteira. 

O jogo teve muitos golos, foi uma coisa maluca. A festa entrou no ritmo das bolas a bater na rede. Copos, cigarros, gargalhadas, beijos, amassos, e mais copos e músicas e copos. Foram para a cama de manhã, mas cada um escolheu o seu lado. 

O caso só aconteceu quando acordaram, muitas horas depois. Os dois esfomeados. «Quero o meu presente», disse ele ao ouvido da rapariga. Abraçaram-se logo. Ele mergulhou e… zás! Aconteceu-lhe chegar lá demasiado rápido. Outra vez o ápice, o vórtice, a queda livre do costume. Ejaculação precoce é o nome científico. Ela já costumava acordar rabugenta, naquele dia reagiu aos gritos. 

– Não deste tempo nem de cantar os parabéns!

O bolo de véspera voltou-lhe à boca, como se tivesse recebido um soco na barriga. O sarcasmo doeu-lhe mais do que todos os palavrões da namorada. Sentiu-se humilhado, diminuído, «minúsculo». Tanto, mas tanto, que engoliu a raiva. Dessa vez «não houve discussão». Marco desculpou-se como pôde e fugiu para o frigorífico, «à procura de comida e água gelada». Sentiu a cabeça tonta e o estômago a remexer de frustração. «Eu acho que decidi terminar ali, mas ainda andámos uns meses», recorda agora. 

Foi o último Verão de um namoro de cinco anos. Iam às praias da Caparica nas folgas e horas livres, mas só voltaram a ter relações sexuais «umas quatro ou cinco vezes». Marco «arranjava esquemas» para evitar novos “casos”. Havia dias em que os dois fugiam do assunto, mas ele vinha sempre ao de cima. «Parecia um elefante, sempre no meio de nós». 

Apesar disso, era melhor assim. Quando falavam de sexo, ela gozava-o, cada vez mais cínica, discutiam e ele adormecia na sala com as expressões dela, piores que pesadelos.

– Velinha de aniversário! Fósforo! Senhor minuto.

É engraçado como conseguiram namorar tanto tempo. «Nós tínhamos coisas boas. Nos primeiros anos curtimos muito», explica ele. «Com o passar do tempo, acredito que comecei a achar que era melhor ficar com ela, fechava um bocado a porta às outras raparigas», descreve ainda. Por outro lado, habituou-se a usar estratagemas para conseguir retardar a ejaculação. Um deles era masturbar-se às escondidas, na casa de banho, imediatamente antes de ter relações sexuais.

Separaram-se em finais de Setembro, ali pelo reinício das aulas. Marco entrou num Inverno. Focou-se no curso de Engenharia e em fazer running com os amigos. «Teve um lado bom. Consegui fazer a cadeira de Matemática que tinha deixado para trás, mas hoje sei ver como andava mesmo triste», descreve o rapaz. A psicoterapia ajudou-o a conhecer e a lidar melhor com as próprias emoções. Foi «49% da solução», descreve ele, na linguagem de quem está quase a acabar o curso. 

Vamos lá, então, conhecer o algoritmo. Primeiro factor: apaixonou-se. Foi por amor que um dia entrou pela primeira vez num consultório, disposto a contar tudo a uma psicóloga especializada em problemas sexuais. «A Sara fez a pesquisa por mim na Internet, marcou a primeira consulta e deu-me muita força para ir», descreve, reconhecido. 

Sara, recém-licenciada em Farmácia, foi o factor decisivo. A "rapariga 51%" teve uma força multiplicadora, capaz de fazer nascer um Marco novo. Conheceram-se na Queima das Fitas do ano passado. Foi tiro e queda para ele, mas desta vez com o coração. «Eu senti uma coisa tão forte que me deixei ir», descreve, com um sorriso sonhador. Se não tivesse sido assim, talvez não tivesse tido qualquer hipótese de vencer o medo. «Queria tanto ficar com ela que senti que tinha de ser capaz de resolver isto», expõe o futuro engenheiro. 

No início, escondeu-lhe o problema. Mas ela decidiu começar a tomar a pílula e complicou as coisas. Abandonar o preservativo foi como «perder um aliado». Teve de contar tudo. Estava «farto» de se masturbar às escondidas, de cada vez que queria fazer amor.

Nas sessões de psicoterapia, Marco foi levado a recordar-se de como tudo começou. É o mais novo de três irmãos. Problemas de saúde do mais velho levaram os pais a tornarem-se «superprotectores» e atentos.

Por outro lado, nunca teve um quarto só para ele. Começou a exprimir a sua sexualidade no momento do banho. Numa família tão grande e com receio de ser descoberto, aprendeu de pequenino a «fazer aquilo depressa». A história clínica foi libertadora. «Compreender a origem do meu problema, ajudou-me logo muito», diz.

Depois, Sara aceitou com gosto participar nas sessões de psicoterapia. No lugar do ressentimento da ex-namorada, ela pôs uma compreensão natural e «até divertida». Em vez de o ridicularizar, aceitou com interesse participar nos truques dele. 

Fazer amor deixou de ser um vórtice e aquela queda livre para o precipício. Com o passar do tempo, o ápice ganhou minutos. Hoje, Marco sente-se «curado» e feliz por isso. 

A psicóloga ajudou-os a desdramatizar a penetração e a valorizar outras experiências. Marco deixou de ser um corredor de cem metros.

«Eu e a Sara agora corremos em equipa, fazemos estafetas», afirma divertido. Ele gostaria que o seu testemunho encorajasse outros homens.

«Se eu soubesse o que sei hoje, tinha saído disto mais cedo», desabafa.​​
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