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18 maio 2016
  Saúde
Texto de Sónia Balasteiro Fotografia de Pedro Loureiro Fotografia de Pedro Loureiro Texto de Sónia Balasteiro
O rapaz delicado
​​​Em bebé, Francisco mal abria os olhos. Até que os pais perceberam: tinham um filho albino. Olhos e pele demasiado delicados para a exposição ao Sol. Ele soube crescer assim. Quando o gozaram na escola por ter a pele demasiado clara, reagiu com humor. A vida ensinou-o a transformar a diferença em força.
Francisco é diferente. E isso nota-se. Nota-se assim que se olha para ele. Não é apenas a pele, extraordinariamente clara. Nem os olhos, azuis acinzentados, que não aguentam a luz do dia, escondidos sob os óculos escuros muito redondos. Nota-se, sobretudo, no cabelo loiro quase branco, nas sobrancelhas, nas pestanas alvíssimas. ​

 
Há 18 anos, Francisco nasceu com uma doença genética: o seu organismo não produz melanina, o que impede a pigmentação no rosto, olhos e cabelo. Em todo o corpo. Chama-se albinismo e tem complicações associadas como fotofobia, falta de visão e pele clara, impedindo-o de usufruir dos benefícios do Sol. Acontece quando ambos os progenitores têm o gene, mesmo que não sejam eles próprios albinos. Nenhum dos pais de Francisco o é. Nem a irmã, cinco anos mais velha. É uma jovem morena. Aliás, diz Francisco, bem-humorado, que ele saiba, «não houve, nos últimos cem anos, um único albino na família». 

 
Não havia, portanto, nada que o anunciasse. Por isso, no início, os pais não compreenderam o que se passava com o bebé. Francisco nasceu com os olhos fechados e assim os manteve durante dias, incapaz de suportar a claridade. Sucederam-se os médicos, os exames. Até que chegou o diagnóstico: era albino. Os pais de Francisco fizeram o que qualquer progenitor atento faria. Redobraram os cuidados, o zelo. Protegê-lo passou a ser uma missão. «Sobretudo, a minha mãe tornou-se superprotectora», diz o jovem com um sorriso. O rapaz demasiado delicado para a luz do Sol cresceu com o odiado chapéu de abas, que passou a ser acessório obrigatório, litros de creme protector e os desvelos do amor materno. «Não suportava aquele chapéu! Acho que ter de o usar sempre foi o que mais me custou em tudo!». 

 
Mas essa não era a única coisa a lembrá-lo de que era diferente. Com pais e irmã de cabelos escuros, a curiosidade alheia sempre fez parte da sua vida. «Quando estávamos todos juntos, perguntavam aos meus pais o que se passava comigo, por que era diferente». Os pais sempre foram mais sensíveis que ele aos comentários dos outros. 

 
Francisco cresceu com eles, sempre fizeram parte da sua vida, nunca o deixando esquecer que é diferente. Está habituado a entrar um espaço e ser o centro das atenções. Sobretudo dos bebés e das crianças, honestos na forma como olham o mundo. «Às vezes, oiço-os perguntar aos pais porque é que eu tenho a pele tão branca, porque sou tão diferente. E, nesses momentos, eu próprio me pergunto porquê. Porque é que sou diferente?» 

 
O chapéu de abas foi definitivamente rejeitado aos 14 anos mas as dúvidas permaneceram.

 
Na adolescência, período conturbado para qualquer ser humano, Francisco dedicou-se a procurar resposta na biologia, na genética que estudava na escola. Foi aí que soube que eram necessários dois genes dos progenitores. Ou que ambos os pais sejam albinos. Com a raridade da doença, o mais provável é que Francisco tenha filhos bem mais morenos que ele. Mas mesmo que se apaixone por uma jovem albina, ou que transporte o gene, não tem medo. Diz estar bem mais preparado do que os pais para qualquer eventualidade. Ser diferente é algo que conhece bem. Sabe quais são as suas necessidades.

 
Foi também na adolescência que ouviu, dos colegas, as expressões “boneco de neve”, “branca de neve”, “homem de gelo”. Que começaram a perguntar-lhe se tinha caído num balde de tinta, se lhe tinham despejado um saco de farinha em cima.  Não se lembra de este tipo de expressões o terem incomodado em demasia.

 
São epítetos que ainda hoje, 18 anos completos, dias passados a estudar na Faculdade de Psicologia da Universidade Nova de Lisboa, ouve «praticamente todos os dias». «Quando mo dizem, levo sempre na brincadeira, rio-me com eles. E deixa de ter qualquer força», afiança, de novo com um sorriso a aflorar-lhe os lábios. 

 
Também não acredita que lhe dificulte a vida amorosa: «Há gostos para tudo». Mesmo assim, Francisco pondera, dentro de alguns anos, emigrar para um país nórdico, onde abundam pessoas loiras. «Gostava de saber o que é passar despercebido. Talvez fosse mais fácil integrar-me». Entretanto, está no primeiro ano de psicologia. 

 
Tem curiosidade quanto à forma como as pessoas albinas como ele vivem. Como se integram. Mas ainda não fez nada para procurar respostas. Até porque em Portugal não é fácil. Sabe que existem associações em Espanha, em França. Mas não cá. Quem costuma procurar semelhantes é a sua irmã. «Ela também é superprotectora», volta a rir Francisco. «Às vezes, estamos em casa sozinhos e se me esqueço dos óculos na mochila, obriga-me logo a ir buscá-los». Não é um preciosismo. Os olhos são, talvez, o ponto mais sensível de Francisco. Como o seu calcanhar de Aquiles. E não é só pela fotofobia que o obriga a usar sempre os tais óculos escuros, muito redondos. Se estiver sem óculos, as pupilas ficam vermelhas. São necessários porque, além disso, explica o próprio, os óculos de Sol são graduados. Aos 18 anos, já tem quatro dioptrias num olho, quatro e meia no outro. E a tendência é que a visão piore com a idade. 

 
Além dos olhos, explica, outro cuidado que tem de ter é com a pele. É necessária vigilância apertada por causa do cancro. Francisco vigia cuidadosamente os seus sinais e visita o dermatologista uma vez por ano. Um dos truques é usar roupa que lhe cubra o corpo o mais possível, no Inverno ou no Verão. Mas ele confessa: Gosta mais do Inverno. Sente-se mais protegido. 

 
Francisco sabe que é diferente. Mas aceita-se. Até porque ser diferente também ajuda a desbloquear conversas. É mais comum as pessoas aproximarem-se e fazerem perguntas. Por vezes, a diferença pode ser uma força.
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