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4 outubro 2017
Texto de Maria João Veloso Texto de Maria João Veloso Fotografia de Pedro Loureiro Fotografia de Pedro Loureiro

O café dos artistas

​​​​​​​​​​Amália Rodrigues era cliente e amiga dos donos da Farmácia Castro Sucessor.​​

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Farmácia Castro Sucessor - Bairro de São Bento, Lisboa

Durante muitos anos foi conhecida como a Farmácia da Amália. Havia até quem pensasse que a farmácia era mesmo dela», explica a "menina" Lucília, por trás deste balcão desde os 16 anos. Amália Rodrigues era frequentadora assídua da Farmácia Castro Sucessor. Mais do que medicamentos, «levava-me flores». Uma espécie de brincadeira que a fadista criou com Lucília Portugal Luz, que selaria uma amizade que durou até à morte de Amália. «Era como se fosse família. Tenho muito boas recordações dela». A maioria relacionadas com flores. Destaque para uns agapantos azuis que apanharam num canteiro de Belém, com a conivência de um agente da autoridade. Eram outros tempos. Ana Portugal Cruz, a directora-técnica – e filha da "menina" Lucília – lembra-se bem desta relação familiar. Certa vez «não tínhamos água em casa e tive que ir tomar banho a casa da senhora dona Amália. Que privilégio». A Farmácia Castro sempre foi frequentada por muita gente da cultura e do meio artístico, como os actores Assis Pacheco, Raul Solnado e Laura Alves ou, mais recentemente, os compositores Sérgio Godinho e Jorge Palma. E sempre fez entregas ao domicílio. «Com seis, sete anos, ia a casa de Ribeirinho entregar encomendas», recorda Ana Cruz.

Já a mãe viaja até ao Estado Novo, quando chegou a levar medicamentos «à Dona Maria, para dar a Salazar». Numa cadeira, perto do balcão, senta-se uma senhora com uns lindíssimos cabelos brancos: Maria Cortizo, cuja relação com a farmácia tem à volta de 50 anos. Dizer que foi enfermeira de Amália seria redutor. «Comecei por tratar de uma empregada e depois da família toda». Nesse tempo vinha aqui buscar medicamentos ou resolver uma aflição qualquer. Hoje, já reformada, vem sempre. «Nos dias em que não venho parece que nem me sinto bem», assume.

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Lucília e a filha, Ana Portugal Cruz. Duas gerações da Farmácia Castro Sucessor

Fundada algures na última década do século XIX, esta farmácia não perdeu o espírito comunitário e familiar tão característicos do bairro de São Bento. «É não só a filiada número 116 da Associação Nacional das Farmácias, como tem a honra de estar ligada por laços familiares a Alberto Ralha, que foi bastonário da Ordem dos Farmacêuticos. É por ele que a luta desta farmácia continua», declara Lucília. Aos 71 anos, a técnica auxiliar de farmácia conserva-se assim, decidida, bonita e menina.

A ligação farmácia-bairro é antiga. Ana Portugal Cruz conta que praticamente nasceu nesta casa, onde «mais do que da saúde, se trata da alma das pessoas». Aqui trata-se da solidão, dispensa-se um apoio aos idosos que precisam, oferece-se um simples sorriso. «Há pessoas que procuram atenção e carinho. Outras vêm simplesmente carregar a bateria do telemóvel. Antigamente chegámos a fazer o IRS a alguns utentes, ou porque não sabiam escrever ou pela idade avançada». A situação mais insólita de todas terá sido pedirem-lhe para guardar um fato para um casamento. «Vem cá o noivo buscar à tarde», disseram-lhe. «Isto aconteceu a um sábado à tarde, tive de ficar à espera dele». O altruísmo genuíno ainda mora aqui. «Quantas vezes a Cortizo estava de serviço no Hospital Particular, a dona Amália sentia-se mal e me chamava? Lá ia eu a correr e até ela chegar era eu que media a tensão à dona Amália. Tive doentes que era eu que os metia no carro e os levava ao hospital». Desta vez ouve-se a voz grave da "menina" Lucília.

Se as histórias são de outras épocas, foi este legado que deixou à filha Ana, que acaba por ser confidente de um bairro inteiro. «Às vezes são coisas muito delicadas. Falam-nos de doenças de que nem a própria família sabe. Eles têm confiança em nós e contam-nos». Ana Filipa Rodrigues, nascida e criada na Rua de São Bento, conta que sempre que faz análises, vem «aqui à farmácia mostrá-las». No número 199, o dia tem mesmo 24 horas. «Chegam a mandar-me mensagens à meia-noite a dizer: "Ana, o meu exame correu bem"». Nunca se fecha mesmo a porta. Não há separação entre a vida profissional e a pessoal.

Ao lado, no 199-B, fica a galeria de arte e antiguidades São Roque. É lá que trabalha o criador António Afonso Lima, sobrinho de Zeca Afonso. Quando entrou na farmácia pela primeira vez, veio-lhe à memória a energia da farmácia do avô, em Moçambique, e sentiu-se em casa. «Aqui falamos muito e às vezes arranja-se outras soluções, mesmo que prejudiquem o dito negócio, o que me enternece». Sensibiliza o antiquário «a quantidade de trabalho solidário que fazem, mas não contam».

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Em Portugal há seis anos, Maria Tomé só frequenta esta farmácia

A directora-técnica, Ana Portugal Cruz, fica aflita quando um medicamento deixa de ser comparticipado. «Há muitas pessoas que não têm dinheiro. Recebem uma reforma de 300 e tal euros e não vão comprar medicamentos». Então, fia? «Fio sim», responde, enquanto leva a mão ao peito e nos desarma: «o retorno é aqui». Adelino Silva, são-tomense de nascimento, se pudesse erguia-lhe um altar: «Quando tenho dinheiro, levo tudo o que quero. Quando não tenho, levo na mesma». Classifica a farmácia «acima de diamante». Está acompanhado da nora, Maria Tomé, que quando tem um problema vem aqui. «A menina Ana dá todas as respostas e tudo fica bem». Muitos clientes tratam mãe e filha por «menina». Já o Padre Mônico, quando entra na farmácia, abençoa-as antes com um sagrado cumprimento: «Santa Ana, Santa Lucília».
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