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12 fevereiro 2016
Texto de Carlos Enes Fotografia de Adelino Meireles Fotografia de Adelino Meireles Texto de Carlos Enes
Nascida para a farmácia

​Maria Angelina tinha o destino marcado antes de nascer. Em criança não gostava de brincar às farmácias. Hoje é a directora técnica de uma das farmácias mais antigas do Porto.​

Maria Angelina Campos de Sousa Real nasceu para ser farmacêutica: ​​​​

- O normal era seguir a profissão da família, sempre soube isso desde criança. 

Um sorriso contido acende-lhe ondas suaves no rosto. Encolhe os ombros nesse ápice. O gesto fica a meio, não dá tempo a nenhum drama. Apenas mostra como a mulher de 96 anos, 72 de profissão, não está para romances de revista em torno da vocação. E o que se revela é a espantosa ironia da condição humana. 

- Eu já nasci com o estigma de ser farmacêutica.

A trama começa na manhã de 22 de Fevereiro de 1885, 33 anos antes de Angelina vir ao Mundo. Foi decisiva uma receita de linimento de sabão com ópio, que o doutor Meneses passou a António Pinto Soares Bahia, descendente de galegos emigrados no Porto. O farmacêutico António Ferreira Campos manipulou o remédio com as próprias mãos, no laboratório farmacêutico, e explicou ao doente como deveria aplicá-lo para aliviar o sofrimento. De seguida, com uma caligrafia muito fina, registou a dispensa no copiador da nova Farmácia Campos, na Rua Direita, mais tarde Rua Central, hoje Padre Luís Cabral. Os sobressaltos toponímicos são um dos sintomas da invasão da cidade ao arrabalde rural e piscatório, até fazer dele um bairro fino. 

Essa página inaugural do copiador, 131 anos depois, está exposta na parede como uma relíquia, impecavelmente limpa. A assepsia da farmácia é incorruptível ao tempo. Por falar nisso, a origem do estabelecimento é mais remota. Pertencia aos Laranjeira, primos de Sebastião, pai de António e bisavô de Angelina. António começou, de pequenino, a aprender o ofício com eles, formou-se e abriu a sua própria farmácia em Santiago do Bougado, aldeia actualmente do concelho da Trofa. Durante quatro anos atendeu homens e mulheres do campo, tantas vezes sem cobrar um tostão. Como reconhecimento recebia bênçãos, frutas e hortaliças, às vezes uns franguinhos. 

Em Santiago do Bougado, António encontrou o amor da sua vida e Angelina o nome de baptismo. Já lá vamos. Facto relevante na conspiração foi o cansaço de outro farmacêutico, Joaquim Monteiro Laranjeira. Quando decidiu retirar-se ofereceu a farmácia da Foz ao filho de Sebastião. Não queria ter o desgosto de ver o sonho de uma vida fechar as portas. A Farmácia Laranjeira passou a chamar-se Farmácia Campos. Trabalho não faltava. O copiador é testemunha: para além do doutor Meneses, respondia diariamente às necessidades de receituário de dois outros médicos - Pinho e Navarro. 

Aos 25 anos, António Campos, que promovia reuniões republicanas na farmácia, sentiu-se seguro para fazer família. A 22 de Maio, uma sexta-feira, exactamente três meses depois do primeiro dia da Farmácia Campos, regressou à aldeia para matrimoniar Angelina da Costa Oliveira, de quem teve nove filhos. Dois rapazes e quatro raparigas. Outros três morreram de pequeninos. Três raparigas fizeram exame de Farmácia. O destino continuava a apertar o cerco a Maria Angelina.

- Na sua família, era tão natural as raparigas aprenderem Farmácia como cozinhar, não é?

- Eu acabei por gostar das duas coisas. 

Em pequena, Maria Angelina tinha mais queda para as letras do que para as ciências. Nunca gostou de brincar às farmácias, mas tinha dado jeito. O pai tinha uma em Estarreja. Começou por ser praticante de farmácia. Manuel Pereira de Souza era cirurgião dentista não podia ser titular da sua própria farmácia. O casamento com Ana da Costa Campos, uma das filhas de António, resolveu-lhe de uma assentada as questões do amor e de incompatibilidade dos dois ofícios. A mulher tomou conta da farmácia e foi educando as filhas para o destino. Duas tiraram o curso, outra foi para professora primária. Aos nove anos, Maria Angelina veio para o Porto porque estava «um pelém» de tão magra. A família considerou que precisava de ser acompanhada por médicos especialistas. Imigrou, mas nas não mudou de destino.

- Vim de uma farmácia para outra farmácia.​

Começou então a ser educada pela tia Laura. No dia 12 de Julho de 1920, foi uma das duas primeiras mulheres a licenciar-se em Farmácia, na Universidade do Porto. O seu curso teve cinco homens e duas mulheres. Foi só o começo do domínio feminino da profissão. Passou-lhe as regras do serviço farmacêutico pelo exemplo. Era uma mulher «muito recta, direita - e gostava de ajudar os outros». Com média de 18 valores, foi convidada a fazer carreira como professora universitária, mas preferiu ajudar o pai na farmácia. Laura morreu com 95 anos, apesar dos problemas cardíacos. Era uma mulher brilhante. Criou fórmulas farmacêuticas que alcançaram grande aceitação e prestígio junto do povo da Foz. A Pomada Canforada, por exemplo, era poderosa a impedir o aparecimento de infecções nas feridas. Maria Angelina, neste ponto, exibe orgulho na profissão:

- É uma lástima termos perdido a tradição dos manipulados. Têm sido descontinuados produtos maravilhosos. 

A Maria Angelina bastava um cálice de um licor caseiro para matar a gripe. O “pelém”, afinal, revelou uma saúde de ferro. Não sabe o que é uma dor de cabeça ou de dentes. Nunca foi ao médico de família. Até há uns meses, quando recebeu uma carta do centro de saúde a ameaçá-la: ou aparecia ou perdia o direito. 

Nos quadros da farmácia há quatro farmacêuticas licenciadas. Maria Angelina é a directora técnica, lúcida e implacavelmente rigorosa como a tia. Lamenta que regulamentos e mais regulamentos a tenham obrigado a abandonar a tradição de fazer curativos e ajudar gratuitamente o povo nessas aflições. Mas ainda há muita gente a querer aconselhar-se só com ela. Continua activa. A profissão ensinou-lhe que «o excesso é mau em tudo, até repousar demais faz mal». 

A filha de Maria Angelina ainda andou na Faculdade de Farmácia, mas preferiu outro destino. Na quinta geração, o destino regressou à família. A neta Isabel é farmacêutica e o «braço direito» da directora técnica.