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14 janeiro 2017
  Saúde
Texto de Sónia Balasteiro Fotografia de Pedro Loureiro Fotografia de Pedro Loureiro Texto de Sónia Balasteiro
Mãe coragem

​​​​​​Rosarinho perdeu quatro bebés. Sofreu mas nunca desistiu. Espera o segundo filho.​​​

​«Tenho genes incompatíveis com a vida». A história de Rosarinho Souto Cardoso, de 29 anos, quase a ser mãe pela segunda vez, começa assim. E tem, como nos contos de fadas, ​um “final” feliz. Frederico, a estrelinha que ri (quase) sem parar, foi o seu primeiro milagre, há um ano. Tinha o bebé apenas seis meses e aconteceu o segundo: o coração de António bate no seu ventre, prometendo brindar o mundo com a chegada em breve.

Rosarinho, como é chamada por todos, encara estes milagres com tranquilidade. Afinal, encontrou o amor bem antes da chegada dos bebés, quando começou a namorar com Diogo há 11 anos. Ele divide com a companheira o protagonismo desta história. Lá iremos.
 
Porque este é um texto sobre a vida e a forma como encaramos os desafios que nos coloca no caminho. Mas é, sobretudo, uma história de amor. Poucos anos após terem casado, Rosarinho e Diogo decidiram ter um filho – e ela ficou grávida. Mas perderam o bebé. «Começámos a tentar em 2013. E perdemos três bebés em pouco tempo. É prática só se investigar a causa dos abortos a partir do terceiro consecutivo», conta a psicóloga. Primeiro, fizeram os exames normais de detecção das causas de infertilidade… depois, o despiste genético.

Os primeiros exames não apontaram para qualquer problema. O diagnóstico genético, porém, teve resultado diferente: «Confirmou que existe uma mutação equilibrada, uma translocação entre dois cromossomas, da minha parte…», lembra Rosarinho, sentada na sua sala de estar.

Respira fundo, olha em volta, e continua: «Foi um diagnóstico um bocadinho duro, porque vem lá escrito que é uma translocação incompatível com a vida, em genes incompatíveis com a vida». O veredicto não ficou por aqui. «Existindo a hipótese de haver bebés que vão para a frente, têm um risco acrescido de polimalformações. Portanto, de ter um bebé que venha com muitas alterações físicas e cognitivas». 



A experiência, porém, foi tudo menos positiva. «Esse foi o mês mais doloroso de todo o processo, porque deixou de ser natural». 

Interrompeu os tratamentos. Não que ela e Diogo tivessem desistido de ser pais. Continuaram a tentar, «aceitar o que a vida traz», como Diogo dirá mais tarde. Ainda perderiam mais um filho, depois do diagnóstico. Rosarinho descreve cada perda como «uma tortura». «Cada bebé que perdemos, perdemos com diferentes semanas. Tanto psicológica como fisicamente, perder quatro bebés em dois anos foi muito duro».

Lágrimas, medo, insegurança. Rosarinho continua. «Chorei imenso mas, ao mesmo tempo, só dizia ao Diogo: “Olha, desculpa”. É como se para mim fosse mais fácil que o problema fosse dele porque tinha certeza de que ia viver bem com isso. E fiquei um bocadinho insegura», condescende, abrindo um sorriso. «Com uma sensação de impotência». Diogo olhou nos olhos da companheira e disse-lhe: «Vai estar sempre nas tuas mãos o que vais querer passar no teu corpo…».
 
Rosarinho continua a sorrir enquanto diz, tranquila: «Fomos sempre estando abertos à vida. Afinal, tínhamos 50% de hipóteses de ser bem-sucedidos».

 


Por sugestão de um médico da família. especialista em infertilidade, ainda se sujeitaram a tratamentos para aumentar as hipóteses. «Ele pensou que, além da genética, talvez houvesse também algum factor físico a complicar». O casal alinhou. «Já tínhamos perdido três bebés…».
 
«Os nossos amigos perguntavam-nos como estávamos a lidar com isto e eu respondia: “Há dias em que nem me lembro. Nós adorávamos ter um filho mas nós não precisamos de ter um filho”. Eu adoro este homem, adoro a minha profissão. Sou agradecida por tudo o que tenho na vida, só tenho coisas boas. E com tudo o que eu tenho de mau aprendo e cresço. Só posso agradecer. Se os bebés vierem, óptimo, se não vierem…».

Como ultrapassaram os momentos difíceis? «Estamos muito convictos de que a felicidade passa por nós os dois. Tudo o resto é bónus. Se a coisa não estiver assente em nós os dois desmorona completamente. Nem consigo imaginar como é que se vive a infertilidade sem ser de mãos dadas», diz Rosarinho, explicando, segura: «Nas fases mais difíceis, os maridos têm um papel mesmo importante. No nosso caso, é engraçado, porque completamo-nos bem. Fisicamente, quando perco os bebés, é muito duro. Mas depois recupero rápido. O Diogo era uma fortaleza enquanto eu estava a passar pelos momentos mais difíceis, falava no futuro, no que íamos fazer, era um ombro. Quando eu recuperava, ele ia abaixo completamente. Percebia- se que estava triste.»

E é hora de dar voz a Diogo, que chega entretanto, com Frederico. Enquanto fala, a sua expressão vai mudando. Sorri, revela que também chorou, também esteve aterrorizado. Fala de amor, de aceitação, de gratidão. «Temos o choque inicial, em que percebemos que, se calhar, os nossos planos não são exactamente como achávamos que iam ser… Quando percebemos o que está a acontecer, acho que há uma parte de nós que se desfaz um bocadinho, ficamos sem rumo… A verdade é que temos mesmo de entregar estas coisas.
 
 


Depois do choque inicial, é pensar onde é que queremos estar, para onde é que vamos».

Juntos, Rosarinho e Diogo perceberam. «Acho que é importante a pessoa dar sentido à sua vida. Se calhar não é para ter filhos, se calhar o que nos é pedido é que vivamos a nossa vida da melhor maneira possível», diz Diogo. Abre o sorriso todo quando fala da mulher:  «Nessas alturas, o nosso amor enquanto casal deve-se evidenciar mais. Devemos mostrar que gostamos muito um do outro, que vamos  ultrapassar».

Houve momentos difíceis. «Desenvolvi um "traumazito" quando entrava nas salas de ecografia. Por fora, mostrava um ar muito sério, de que tudo ia correr bem, para a Rosarinho olhar para mim e pensar: “Está ali um pilar, força, tudo impecável”. Mas não era bem assim. Por dentro, estava aterrorizado».

Como esteve quando viu Frederico na ecografia das 12 semanas. «É a mais impactante, porque, como ainda é muito pequenino, já vemos o bebé todo, os braços, as mãos, a boca... E é um momento de agradecimento profundo pelo que nos está a acontecer». É, afinal, «uma dádiva muito grande». A vida.

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