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25 junho 2015
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Texto de Filipe Mendonça Fotografia de Júlio Lobo Pimentel Fotografia de Júlio Lobo Pimentel Texto de Filipe Mendonça
A luz de Almiro

​A farmácia de João Almiro nasceu no rés-do-chão da casa de família,​ mas ele sempre preferiu apostar nos livros em detrimento do atendimento ao público.

​«Vivo feliz e tranquilo, aguardando ser chamado ao encontro com Deus, com o coração cheio de amor e serviço que dei e que também recebi, sem me preocupar em demasia com a conta bancária». As palavras estão escritas num pedaço de papel que João Almiro guarda no bolso. Está ali tudo: 89 anos, em quatro linhas. ​

Escreve muitos bilhetes assim. Traz na algibeira pensamentos que vai rabiscando em noites mal dormidas, ou que lhe assaltam o pensamento enquanto conduz. «Às vezes tenho de parar para escrever», explica, agarrado ao volante do seu jipe. Quem o conhece fala num homem focado. Tímido, mas bem-humorado. João Almiro é um ser iluminado. Para ele, é natural encontrar todos os dias uma luz na escuridão. 

João Almiro de Melo Meneses e Castro nasceu a 24 de Junho de 1926, dia de S. João, em Canas de Santa Maria, entre Tondela e Viseu. Na infância, escondia-se muitas vezes no consultório do pai, que era médico-cirurgião. «Gostava de vê-lo a cortar os ossos e a suturar». Aluno médio, dado às «revoltas e às borracheiras», João Almiro queria ser médico, mas o pai achava que já havia médicos suficientes na família e desviou-lhe o destino. Fez-se farmacêutico, em Coimbra, para cumprir a vontade dele. Casou. Separou-se. Teve sete filhos, mas um morreu ainda com poucos meses.

João Almiro fez nascer a sua farmácia no rés-do-chão da casa de família. Hoje, a Farmácia Almiro é em Campo de Besteiros. O balcão, contudo, nunca foi à medida dele. Trocava o atendimento ao público pelos livros. «Para estar ao balcão é preciso ser relações públicas», brinca. Quem diria. 

Sempre foi um estudioso obsessivo. A profissão, para ele, é ciência. Arrojado, experimentou medicamentos injectáveis manipulados no próprio corpo. Seguro, arriscou fazer uma transfusão de sangue directa, doente a doente. «Hoje era preso por isso», ironiza. Mas, por «isso» mesmo, salvou dois seres humanos da morte. Com uma curiosidade científica sem limites, tornou-se campeão do mundo na participação em congressos internacionais de farmacêuticos. 

Foi vereador na Câmara Municipal de Tondela e presidente da Junta de Freguesia de Campo de Besteiros. Criou a Labesfal, Laboratório de Especialidades Farmacêuticas Almiro, que acabou por entregar aos filhos. «Agora tenho uma riqueza maior. São estes homens e estas mulheres que vivem comigo».

Para as contas do sangue, sobram quinze netos e sete bisnetos. Na aritmética do coração, centenas de crianças, jovens e adultos a quem salvou a vida. «Eu sou capaz de lhes dar duas bofetadas, mas também lhes dou amor». Tem sido essa a chave do sucesso. «É a amar que se conquista», traz escrito noutro pedaço de cartão.


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