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19 novembro 2016
Texto de Sónia Balasteiro Fotografia de Ricardo Meireles Fotografia de Ricardo Meireles Texto de Sónia Balasteiro
Jesus nasceu no Minho

​​​​​Barcelos é a terra dos presépios.

É quase uma viagem à infância. À nossa, que vamos conhecer os lugares fantásticos onde nasceram – e ainda (re)nascem – os presépios da nossa meninice. Sobretudo à de Cândido Macedo, médico de família e filho da terra acarinhado por todos, que, há sete anos, abriu a Unidade de Saúde Familiar (USF) de Santo António. Será ele o cicerone pelo figurado de Barcelos, arte nascida da olaria e, como ela, parte essencial do viver das gentes do concelho.

Antes de sairmos para as freguesias onde a tradição se reinventa nas mãos de reputados ceramistas, há tempo para uma paragem rápida na "antiga casa" do médico, a USF de Sto. António. Aponta, orgulhoso, para uma caricatura que encomendou a Joaquim Esteves. «O Esteves vive e trabalha na minha aldeia», anuncia, enquanto nos conduz para fora da cidade.

A aldeia de que fala é Areias de S. Vicente, onde o menino Cândido, um de dez irmãos, viveu até aos nove anos, e uma das três que contam a história do barro. Pela estrada nacional acompanha-nos uma paisagem rural, domada. O casario, a revelar a abundância do granito da região, sucede-se, e as antigas fábricas e expositores de olaria também. 

Sete quilómetros depois, cruzamos a placa que indica Galegos de S. Martinho, onde vive a neta daquela que é considerada a grande mentora do figurado, Rosa Ramalho, ceramista que celebrizou esta arte além-fronteiras na segunda metade do século XX.


Continuamos. Cândido Macedo vai moldando as palavras à história que é também a sua: «Aqui há três freguesias muito ligadas ao artesanato.
A principal, S. Martinho de Galegos, é onde vive a Júlia Ramalho, depois há Sta. Maria de Galegos, de onde era a Conceição Sapateiro. E há a minha aldeia, Areias, onde nasceu o vidrado, da olaria. A Conceição casou lá».  

O tratamento próximo não é por acaso. Conceição Sapateiro, ou «Sapateira» como ainda gosta de ser chamada quando visita Sta. Maria, foi doente do doutor Macedo. É vizinha de familiares do médico – todos se conhecem por aqui.
 
«Em Areias, viviam os oleiros, que faziam aquela loiça artesanal. O meu avô tinha uma fábrica de olaria. E o meu pai era uma das pessoas que
mais percebia daqueles vidrados mais antigos. Naquele tempo, ainda se usava chumbo! Acabou por ser suspenso por causa da toxicidade, nos anos 70, 80», conta, bem-disposto.

Chegados a Areias de São Vicente, o médico de 61 anos aponta para a casa dos pais, com a antiga empresa ao lado, enquanto nos guia para o 57 da Travessa da Aldeia. A casa de Conceição Sapateiro será a primeira paragem desta demanda pelos presépios populares.

Com 73 primaveras, a artesã recebe-nos com um sorriso largo. Logo à entrada, um presépio tradicional, com a cabana, os pastores e as ovelhas, anuncia que o Natal já chegou aqui. «Estes presépios surgiram na década de 40», introduz o guia.

Por todo o espaço, as cores do Minho sobressaem em peças com cores garridas, vivas: o azul, o «amarelo como amizade, verde como esperança, o vermelho do sangue derramado», como explicará Conceição. «O Minho é muito colorido».
 
A artesã, que se notabilizou no figurado vidrado, mostra um estábulo em que é o galo – de Barcelos, claro está – a debruçar-se sobre Jesus. «Está a aquecer o menino. O burro e a vaca aquecem-se um ao outro». Noutra criação, a ceramista decidiu tapar o menino com um "lençolzinho", para não ter frio». Mulher de fé inabalável, homenageia também São Francisco de Assis, «o fundador dos presépios»: «Tem um gatinho nos pés, pombinhas nos ombros, tudo». Ambos riem, cúmplices.

Conceição está a moldar outro presépio, em barro branco, no ateliê que lhe dá «saúde». O médico repara nos seios generosos de Maria numa peça, uma marca da artesã. A resposta é pronta: «Nossa senhora amamentou o menino. E uma mulher depois de dar à luz tem sempre o peito grande».

Despedimo-nos, para conhecer outro dos artistas preferidos de Cândido Macedo, numa travessa próxima. Joaquim Esteves, caricaturista por excelência, é apresentado como «o que melhor representa a criatividade de Barcelos».

Foi em 2001 que a arte de moldar o barro chamou pelas suas mãos, conta o artesão. «Eu gostava de arte, mas não gostava de artistas». Há música na garagem feita oficina. Joaquim Esteves mostra várias peças: a icónica (e polémica), "Os três P", que causaram brados na Igreja; o "Zé Galo", um tributo ao Bordalo Pinheiro, artista a que bebeu inspiração, e a "Maria Paciência".

Há uma escultura que se destaca, de grandes dimensões. Um presépio, que está a ser desenvolvido há mais de um ano, pois «o humor também é um estado de espírito»: «Topograficamente é Lisboa. Belém, a Estrela e, aqui, a Assembleia da República. Em cima, a Cova da Moura…
 
E tem um cariz mais pagão: deixa de ser o rei a distribuir os presentes e passa a ser o Pai Natal». Cada pormenor deste presépio, com cores mais opacas ao gosto pessoal do barrista, tem subjacente «uma crítica política». Mas o presépio satírico não é o único que faz: «Também gosto de presépios mais carinhosos. Do espírito de paz, de harmonia. Nesses presépios, a vaca está feliz, o burro está feliz, todos estão felizes».

Em zona de barristas, a família Ramalho é incontornável e a próxima paragem, no regresso a Barcelos, é Galegos de S. Martinho. «O meu pai dava-se muito bem com a Rosa Ramalho, avó da Júlia. Lembro-me de que, um dia, foi visitá-lo e contou-lhe que experimentou umas coisas com vidrado. Vieram uns tipos de Lisboa que gostaram muito e queriam levá-la a todo o lado», conta o guia, enquanto nos conduz à casa.

Júlia é, precisamente, a herdeira do saber de Rosa, de quem aprendeu a arte desde muito pequena. No ateliê há toda uma colecção de peças vidradas a tons de mel ou castanho. A ceramista conta a história dos seus presépios. Detém-se num que criou há 50 anos para uma exposição no Casino do Estoril. «Este é um carro de bois do Minho. Faltava pouco tempo para a exposição. Fui para a cama a pensar, a pensar… e se eu fizer o carro de bois e o presépio há-de caber lá dentro?», recorda, sorridente, apontando para uma das suas muitas peças. «E assim foi». Um sucesso.

Parte da sua arte, resultado de uma vida inteira, pode ser admirada em Barcelos. Até ao final de Dezembro, os seus presépios, e muitas outras peças, integram uma exposição dedicada à Geração Ramalho, no Museu de Olaria. Que poderia ser o ponto de partida para esta viagem à infância. No museu, percebemos que o figurado nasceu do aproveitamento de bocadinhos de barro, que eram transformados em figuras para as crianças brincarem. ​

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