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12 novembro 2015
Texto de Filipe Mendonça Fotografia de Júlio Silva e Carla Bessa Fotografia de Júlio Silva e Carla Bessa Texto de Filipe Mendonça
Faça-se luz

Um em cada quatro medicamentos receitados pelos médicos não é levantado nas farmácias. Para combater esta realidade nasceu a Associação Dignitude. O objectivo é ajudar meio milhão de portugueses nos próximos três anos​.

Vidas na lama


Elsa e Paulo vivem nos escombros de um balneário em Lisboa. Perderam o emprego e a casa alugada que tinham em Sintra, mas recusam abdicar da dignidade e do amor que os une. Sozinhos, entre hortas urbanas e betão abandonado, pedem que alguém olhe pela sua saúde.

Cheira a lama. Terra molhada é outra coisa. Cheira a lama e erva encharcada no centro da cidade. Paulo serpenteia pelas hortas urbanas a caminho de  casa. «Vá lá que isto hoje está sol. Imaginem quando chove!». Não é difícil. O trilho escorregadio, sempre a subir, está entalado entre mato e pedaços de rede. «Isto é o poço onde vimos buscar água», explica o anfitrião enquanto trepa a encosta, segundos antes de dobrar a última esquina. Chegámos. 

A primeira imagem é a de um cemitério de memórias felizes. Em tempos, jovens cheios de força ousaram imitar aqui o Maradona, serem do tamanho de Eusébio, rasgar o mundo ao jeito do Figo. Coisas que os rapazes sonham sempre que dão um pontapé na bola. Desse tempo, sobram ruínas, restos de betão armado. Vestígios de um campo de futebol, com balneários e tudo. Paulo e Elsa, a mulher, vivem naquilo que ficou da trincheira dos “visitantes”. É nada, ou quase. «Não temos nem luz, nem água. Não imagina o que é acordar de manhã, com frio, querer tomar um banho quente e não poder. Tenho de ir tirar água do poço. Ninguém diz que vivo numa barraca. Pensam que vivo numa casa a sério», desabafa uma mulher de traço fino, arranjada, pintada, de lenço bonito impecavelmente aconchegado ao pescoço. 51 anos.

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Elsa arranjou emprego numa loja há duas semanas. Paulo continua desempregado e a viver de biscates. Almoçam e jantam na Associação Cais, em Xabregas. É descer o morro e atravessar a estrada. O pior é ao fim-de-semana. «Não temos frigorífico. A comida que trazemos, azeda. Não temos nem família, nem amigos para nos ajudar. Sabe uma coisa? Os senhores foram das poucas pessoas que quiseram saber onde moramos. Ninguém quer saber, ninguém», sussurra Paulo em direcção ao chão.

«Não tenho dinheiro para os medicamentos todos»

Em cima da mesa da única as- soalhada dos escombros do balneário, agora feitos casa, amontoam-se receitas por dispensar. Do outro lado, num parapeito, caixas e caixas de medicamentos. Umas cinco ou seis, diferentes. «Este mês não comprei os remédios todos para as varizes. Não tinha dinheiro. Na última compra que fiz na farmácia gastei 40 euros e tive de pedir emprestado», recorda Paulo enquanto mostra a perna roxa, negra, a pedir ajuda, medicação regular.

Naquela meia-dúzia de metros quadrados, bem arrumados e limpos dentro do possível, Elsa e Paulo pedem dignidade. Cuidados. Estão cansados de que a sua saúde esteja sujeita à lógica dos acasos, por mais que saibam que cada um ajuda como pode. «Às vezes recebemos medicamentos da AMI, quando há. Mas nem sempre há». Paulo acredita que o Programa abem: vai ser uma ajuda essencial, sobretudo para quem vive sujeito a condições de higiene e conforto tão precárias. Elsa sente isso literalmente na pele: «Aqui já vi de tudo: cobras, ratos... Há dias fui mordida por um mosquito e estou a fazer alergia. Depois tenho o problema do colesterol, que devia ser controlado com mais atenção, o desgaste das minhas articulações e os ansiolíticos sem os quais não consigo viver».

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No olhar de Elsa não há vergonha, só mágoa. «Tire as fotografias que quiser. Não tenho problemas com isso», dispara como se estendesse a mão. No rosto de Paulo moram as marcas das armadinhas dos dias. Há quem lhe chame vida. «Tínhamos uma casa em Sintra. Perdemos o emprego e o dinheiro para pagar a renda. A assistente social disse que era melhor virmos para Lisboa».

As palavras de Paulo falam de um tempo próximo. Foi há três anos que o seu mundo mudou, que o país da Troika mudou, que o céu, o mar e a cor da terra mudaram também. Mudou tudo, menos o amor que sentem um pelo outro. «Podíamos ter ido para um albergue, mas não queremos separar-nos. Estamos juntos e é juntos que vamos vencer esta fase mais difícil», prometem as 45 vidas deste pintor.

Na receita, os medicamentos do costume: uns para a tensão, outros contra a diabetes. Na carteira, as dúvidas e as angústias de quem a vê cada vez mais curta, como os dias de Inverno. «São 23 euros», dispara Vanessa Silva. «Só tenho 20. Pago o que falta em Março», envergonha-se o homem, do outro lado do balcão. «Deixe estar. Paga a caixinha», resolve a farmacêutica.

A estória passa-se a meio de Novembro e ajuda a explicar para que serve aquele cilindro de mental, feito mealheiro de criança, intimidado junto ao computador que cospe facturas. «Ninguém sai daqui nem com fome, nem com dores, isso lhe garanto». Joana Fonseca tem «farmacêutica» escrita no olhar. Podia ser só solidariedade. É paixão. Missão. Herança da senhora sua tia, matriarca da Farmácia Moreira Padrão, na Trofa. «A ideia da caixinha nasceu há cinco anos. A minha tia sempre teve um coração enorme. Fiava a toda a gente. O que fizemos foi continuar a ajudar, mas de outra maneira. As pessoas contribuem com o que qui- serem, normalmente é o troco. Deitam na caixa e depois esse dinheiro vai ajudar, por exemplo, alguém que não tem capacidade financeira para aviar tudo o que está na receita», explica a sobrinha de Maria Júlia Padrão.

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A tia está lá dentro. São mais de 90 anos de vida e de estórias. «Sabe, a gente ao balcão não sabe dizer que não. A mim “levam-me” facilmente, os meus colaboradores já evitam que seja eu a atender as pessoas», confessa a matriarca. As provas estão escondidas por baixo do balcão: livros e livrinhos de quem toda a vida vendeu fiado.

«É melhor nem somar. É a nossa caixinha das desgraças», sorri a sobrinha. Maria Júlia finge que não percebe. Sabe tud​o o que se passa, dentro e fora da farmácia. «Antigamente, havia mais pobreza, mas também mais dignidade. Podia-se fiar, que as pessoas apareciam para pagar», comenta a matriarca, que não é a única a sofrer do bem da solidariedade. 

A «caixinha», como lhe chamam na Trofa, nasceu para acalmar a alma de todos, sobretudo de quem trabalha na farmácia. Que o diga Ana Sá, outra das farmacêuticas. «Quando estava a estagiar e chegava cá alguém que não conseguia levar a receita toda, ou por exemplo não conseguia comprar o antibiótico, eu ia lá dentro, à minha carteira, e resolvia. Um dia, o meu colega Luís explicou-me uma coisa simples: “Se fizeres isso muitas vezes, o teu salário não chega”».