Política de utilização de Cookies em Revista Saúda Este website utiliza cookies que asseguram funcionalidades para uma melhor navegação.
Ao continuar a navegar, está a concordar com a utilização de cookies e com os novos termos e condições de privacidade.
Aceitar
11 dezembro 2018
Texto de Paulo Martins Texto de Paulo Martins Fotografia de Luís Silva Campos Fotografia de Luís Silva Campos

Compensação de quem sabe escutar

​​​​​​​​​​Descobriu um vírus, matou mil preconceitos.

Tags
Jovem interno do Serviço de Infecciologia do Egas Moniz, coube a Kamal Mansinho transportar as amostras, cerca de 25 mililitros de sangue extraído de um doente da Guiné-Bissau, ao aeroporto de Lisboa – de autocarro, como noutras ocasiões. Odette Ferreira alojou-as junto ao corpo, por baixo do casaco de peles, para manter a temperatura de 37° C, e passou sem incómodos pelo controlo de embarque do voo matinal para Paris. O que hoje seria «um autêntico exercício de bioterrorismo», recorda o médico, constituiu em finais de 1985 a solução para levar as amostras ao Instituto Pasteur, onde seriam postas em cultivo.

Desde 1979 que a unidade hospitalar lisboeta acolhia doentes evacuados da África Ocidental cujo quadro clínico era compatível com VIH – apesar de não integrarem os grupos de risco então identificados, como os homossexuais – mas as análises não o confirmavam. Frustradas as tentativas de encontrar causas, morriam em pouco tempo. A equipa, dirigida por José Luís Champalimaud, pediu ajuda a Odette Ferreira, que realizava testes laboratoriais de fluorescência. «Não davam positivo nem negativo», conta Kamal Mansinho, mas logo a farmacêutica suspeitou que se tratava de um novo vírus. Pouco tempo depois de regressar a Portugal, o telefonema de um investigador do Pasteur confirmou que acertara. 

«Já tínhamos na cabeça a impressão de que havia uma coisa nova», afirmou ela quase três décadas volvidas, numa reportagem da SIC. As «impressões» e o conhecimento científico consolidado ficaram registados no caderno hoje conservado no Museu da Farmácia. À revista Farmacêutico News, em 2016, admitiu ter sentido «um orgulho imenso», porque a descoberta matou preconceitos, como o de que «o farmacêutico não era capaz de desenvolver estudos e, dessa forma, contribuir para uma melhoria da saúde pública». Provavelmente, nem Luc Montagnier, virologista francês do Instituto Pasteur que em 1983 isolara o primeiro vírus em doentes com sida, acreditaria que havia um segundo. A verdade é que para aprofundar a descoberta juntou a sua equipa à portuguesa, que além de Odette Ferreira integrava José Luís Champalimaud, Jaime Nina e Kamal Mansinho. E, em Março de 1986, anunciou a descoberta em Lisboa, num simpósio internacional sobre a doença, atribuindo os créditos aos investigadores nacionais.

Com o título “Isolation of a new human retrovírus from West African patients with AIDS”, a revista Science publicou em Julho desse ano os resultados do estudo. Ficou demonstrado que o vírus possuía propriedades biológicas e morfológicas semelhantes às do LAV (lynphadenopathy associated virus, designação original do VIH-1), sendo diferentes alguns componentes antigénicos. Entre a vasta equipa luso-francesa autora do artigo, figuravam Luc Montagnier e Françoise Barré-Sinoussi, que viriam a conquistar o Nobel da Medicina em 2008, precisamente pela descoberta do vírus. Um novo artigo, difundido em Maio de 1987 pelo New England Journal of Medicine, que já contou também com a assinatura de Mansinho, apresentou evidências de infecção por VIH-2 em 30 doentes, quase todos da África Ocidental.

Se o mundo científico reconheceu de imediato o enorme progresso proporcionado pela descoberta na área da epidemiologia e do diagnóstico da sida, também os estados o fizeram. Odette Ferreira, que em 1993 viria a isolar um novo subtipo do VIH-2, o ALI, e a confirmar que o segundo vírus poderia transmitir-se da mãe para o feto, foi em 1987 distinguida pelo Governo francês com o Chevalier de la Légion d’Honneur. No ano seguinte, seria agraciada com o grau de comendadora da Ordem Militar de Santiago de Espada pelo presidente da República Mário Soares, que conhecia desde os tempos em que frequentou o Colégio Moderno.



A sua experiência no domínio das infecções é anterior. Pela mão de Yves Chabbert, director da Unidade de Antibiótico e Antibioterapia do Instituto Pasteur, investigara a actividade antibacteriana das novas cefalosporinas, designadas de 3.a geração. Em 1973, apresentou em Nice um estudo sobre a sensibilidade a antibióticos de bactérias com origens diversas. Utilizando um sistema inovador no estudo de infecções hospitalares provocadas pelo bacilo piociânico, detectou uma proporção muito elevada de estirpes portuguesas. Graças à formação adquirida em França, tornou-se a única pessoa em Portugal habilitada a determinar a origem das infecções hospitalares. «Foi assim que fui aceite pelos médicos, era uma mais-valia», refere na biografia escrita por Sandra Nobre.

Munida de autoridade científica, produziu os diagnósticos iniciais de sida em Portugal. O Diário de Lisboa de 7 de Julho de 1983 noticiou o primeiro caso na capital. Nesse ano, foram feitos os três primeiros diagnósticos. Em 1984, já eram oito e todos da sua responsabilidade. Incluindo o de António Variações, cuja morte prematura conferiu visibilidade pública à doença.

Igual a si própria, Odette Ferreira quebrou distâncias – quer em relação aos doentes, quer aos colaboradores. «Nós éramos a miudagem, ela a professora da faculdade, mas deixava espaço para que pudéssemos insistir nas nossas dúvidas e teimar que os doentes tinham mesmo aquelas queixas. Não era habitual um contacto tão pouco hierarquizado entre a arraia-miúda e os professores», recorda Kamal Mansinho. Seu amigo para sempre, acompanhou-a até ao fim. Nesta edição, dá testemunho dessa longa amizade (ler pág. 77).
 
Há 35 anos, o desconhecimento do fenómeno da sida ainda servia de pasto a ideias feitas, sem o mínimo fundamento. Odette mergulhou nesse mundo de medos à solta, enfrentando incompreensões. «Havia quem mudasse de passeio só para não se cruzar comigo. Na faculdade, o director não queria que eu trabalhasse, com medo que infectasse alguém. As pessoas achavam que se transmitia com um aperto de mão. E, nos cafés, multiplicavam-se os copos de plástico para evitar contágios», recordaria mais tarde. Sempre que lhe perguntavam se não receava apanhar o vírus, soltava a resposta artilhada: «O Pasteur também não teve medo e trabalhava de fato». É imagem que não esquece, já que um quadro no seu gabinete da universidade mostra o famoso cientista francês em actividade laboratorial. De fato, como se a participar numa cerimónia.
Notícias relacionadas