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6 junho 2016
Texto de Pedro Veiga Fotografia de Paulo Neto Fotografia de Paulo Neto Texto de Pedro Veiga
Chumbámos no exame prático

​​​​O reitor da Universidade Nova de Lisboa pegou num livro com trinta anos para demonstrar o defeito português: não somos capazes de resolver o que toda a gente sabe que tem de ser resolvido.

António Rendas não é um optimista. Gostaria, assume, mas não consegue sê-lo quando o tema é o futuro do sistema de saúde. Pelo menos, não o consegue de forma suficientemente consistente para ignorar que um copo meio cheio é também um copo meio vazio. «Os portugueses são óptimos a fazer a identificação correcta e a análise dos problemas», começou por dizer na sua intervenção no 12.º Congresso das Farmácias, «mas são incapazes de mudar». Na avaliação do reitor, «foi pouco o progresso conjunto no sentido de resolver as questões da Saúde».

A sentença é intencionalmente abrangente mas, mais do que insinuar a existência de uma total aversão à mudança entre os key players do sector, pretende recordar a mudança que também podia e devia ter sido feita e que, por este ou aquele motivo, nunca chegou a acontecer. É o tal lado meio vazio que existe em todos os copos meio cheios.

Para demonstrar o seu ponto de vista, o reitor da Universidade Nova de Lisboa (UNL) recorreu ao livro “Uma Política de Saúde para Portugal”. Da obra, editada em 1987 por José Pinto Correia, António Rendas citou um conjunto de cenários ideais referentes ao sistema de saúde e confrontou-os com a realidade. Sobre a acção política. «Ideal: o Ministério da Saúde deve definir uma política de Saúde estável para o país, objecto de consenso geral e ser o garante da sua execução. O real: o Ministério da Saúde esgota-se no dia-a-dia, a gerir o que não parece gerível e tem sido vítima de várias forças partidarizantes». Sobre a tecnologia. «O ideal: estrutura flexível para aceitar novas tecnologias. ​O real: estrutura rígida, incapaz de se abrir facilmente às novas tecnologias». Sobre os recursos humanos: «O ideal: várias profissões em pé de igua​ldade. O real: profissões nobres e profissões servis. O ideal: equipas multidisciplinares. O real: profissionais muito individualistas». A lista foi longa e poderia ser bem mais extensa, mas a ideia central seria a mesma: «hoje, em 2016, continuamos com a maioria dos problemas então identificados e longe de uma mudança».

E por onde pode começar essa mudança? Talvez pelo ensino, de modo a orientar a formação para a «necessária multidisciplinaridade». O reitor da UNL alertou, no entanto, que «temos de ter os pés assentes na terra. Temos de olhar para o terreno e perceber que os nossos profissionais, hoje, não estão treinados para lidar com problemas multidisciplinares».

O que lhe parece claro é que «se amanhã prosseguirmos a nossa vida como até aqui, o sistema não vai mudar». Entende que há condições para evoluir, por isso pede ao Presidente da República atenção máxima ao problema: «Só com um pacto político e social na área da Saúde é que vamos conseguir resolver o problema. Deixo aqui o meu apelo nesse sentido. (...) Temos pela frente desafios muito interessantes que se prendem com as fronteiras profissionais, a gestão eficiente de orçamentos, a liderança, questões éticas e morais. E em saúde não existem soluções globais, porque estamos sempre a lidar com indivíduos. Não há poções mágicas, só trabalho árduo». Trabalho árduo. António Rendas ainda não é um optimista, mas isso não o impede de tentar ser.​
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