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24 janeiro 2016
Texto de Carlos Enes Fotografia de Carla Bessa Fotografia de Carla Bessa Texto de Carlos Enes
António Arnaut: «Sou contra farmácias para pobres»

​​​O criador do SNS defende um sistema público de saúde para todos, sem excepção.​

Revista Farmácia Portuguesa – No discurso que fez, quando lhe foram atribuídas as Insígnias da ANF, contou que foi um farmacêutico a ensinar-lhe a palavra Democracia. Conte-nos lá essa história.
AA – O farmacêutico de Avelar, o senhor Medeiros. Eu era puto e ia de bicicleta da minha aldeia, a Cumieira, comprar o jornal ao Avelar. Comecei a estudar lá, porque um sobrinho do senhor Medeiros, que era médico, tinha lá um colégio. Se tivesse de ir para Coimbra não teria tido essa possibilidade. Depois, já com uns 14 anos, ia à farmácia comprar álcool perfumado, que ele fazia, para fazer a barbicha. Aviava muitas receitas para gente da minha aldeia. Eu aprendi muito cedo a dar injecções, porque o médico receitava muitas, e não havia ninguém que as desse. O senhor Medeiros puxava muito por mim, gostava de mim. Falava e via que o rapaz estava interessado em saber coisas, até em saber o que era a Democracia. E mais tarde, nos fundos da farmácia, onde ele tinha o laboratório, fizemos muitas reuniões da oposição.

RFP – Também recordou que ouvia as emissões da BBC numa farmácia.
AA – Sim, na Farmácia Carmo, do Espinhal. Antes do 25 de Abril, a malta entrava lá para trás, para o laboratório, para conspirar. Naquela época, as farmácias eram locais de convívio e de tertúlia. Eu tive essa vivência.

RFP – Deixe-me agora entrar num tema que lhe é caro. Desde o ano 2000, fecharam 75% das escolas primárias, 70% das urgências básicas, metade das extensões dos centros de saúde e já um terço dos postos de correio.
AA – E agora ponha aí os tribunais.

RFP – O facto de as farmácias ficarem lá, nas terras onde fecha tudo, não está a dar-lhes uma nova responsabilidade?
AA – Sim – e muito importante, muito importante. A farmácia é a primeira linha de cuidados de saúde. Antigamente acontecia muito, mas ainda agora as pessoas vão ao farmacêutico aconselhar-se. Porque a farmácia vai a todo o lado, há aldeias que têm farmácia. Há quase três mil farmácias no país. A farmácia é a mão longa do SNS.

RFP – Acha que valerá a pena aproveitar a rede de farmácias para fazerem mais serviços, designadamente aos doentes crónicos?
AA – Não tenho uma opinião formada. Os centros de saúde também estão acessíveis hoje, embora em certos casos não haja médico de família. As farmácias já têm serviços. A farmácia do meu bairro, em Santa Clara, tem lá o aparelho de medir a tensão, faz o controlo da diabetes, dá muitas injecções. No ano passado até fiz lá a vacina da gripe. Por outro lado, sei que há negociações para alguns medicamentos das farmácias hospitalares poderem ser distribuídos nas farmácias de oficina.

RFP – Choca-o que os farmacêuticos participem activamente em programas de saúde pública e campanhas de vacinação?
AA – Não. Acho importante que participem. Eu valorizo o acto farmacêutico. O acto médico é o acto médico, mas há o acto farmacêutico.

RFP – O que o levou a aceitar ser embaixador da Associação Dignitude?
AA – Não foi nada difícil, quando conheci os objectivos. Até disse logo que é uma palavra muito bem achada, porque conjuga a dignidade com a virtude cívica da solidariedade. Tem a ver com todos os meus valores, contribuir para o respeito da dignidade humana. As pessoas que não têm acesso ao medicamento por carências económicas vão passar a ter esse acesso, mas de uma forma digna, porque esse acesso é feito sem que o utente seja humilhado, sem que o medicamento tome o aspecto de uma esmola. A pessoa vai à farmácia e ninguém sabe se é beneficiária ou não.

RFP – Para o senhor não faz sentido haver uns balcões de farmácia para os pobres e outros para as outras pessoas?
AA – Não, não! Toda a filosofia do SNS é contrária a isso. 

RFP – Para terminar, tenho uma notícia para si. Esta entrevista vai ser transcrita na norma ortográfica anterior ao acordo, como os seus livros.
AA – Eu escrevo pela antiga ortografia, ou seja, pela verdadeira ortografia. Não sou um fundamentalista, mas acho que a língua portuguesa ficou desfigurada pelo novo acordo. Acho que o acordo devia ser revisto e assinei a petição para isso. A língua é um património, não há mal nenhum que haja divergências ortográficas, é próprio da riqueza da língua. Podemos ler Jorge Amado e José Saramago sem acordo ortográfico. Há coisas absurdas. Poderia dar mil exemplos, fico-me por um: recepção. Agora, caiu o “p”, mas o paradoxo disto é que os brasileiros dizem rece-p-ção. Vá lá, tivemos sorte. Ainda não caiu o “h” de homem.
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