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9 janeiro 2016
Texto de Sónia Balasteiro Fotografia de Carla Bessa, António Santos e Céu Guarda Fotografia de Carla Bessa, António Santos e Céu Guarda Texto de Sónia Balasteiro
Amigos para a vida

​As farmácias são a rede de cuidados de saúde mais próxima dos portugueses. Os farmacêuticos não dão apenas conselhos sobre medicamentos. Cada vez mais, apoiam os doentes crónicos e garantem serviços de nutrição, podologia, osteopatia ou audiologia às populações. Médicos, farmacêuticos e outros profissionais de saúde falam cada vez mais uns com os outros. Os portugueses ganham anos de vida.​

Farmácia União: Doente a Doente

Quem chega a Talhadas, no concelho de Sever do Vouga, vê-a logo. Como a um farol. Moderna, envidraçada, destaca-se na paisagem composta por casas baixas e arvoredo alto. Chove copiosamente mas, dentro da Farmácia União, sente-se o aconchego familiar. 

Um casal de idosos está a ser atendido pela farmacêutica Susana, que pergunta à senhora sentada do outro lado da mesa, à sua frente: «Este já toma, certo?». A resposta afirmativa é retorquida com um aviso: «Tem de deixar o outro medicamento agora». Perceber a necessidade da medicação, a segurança, a posologia correcta e as condições que o utente tem para a tomar é apenas um dos serviços farmacêuticos de que a União dispõe.  

Aqui, trata-se «doente a doente», explica Paulo Nogueira, o director técnico que, em 2010, transformou o então posto móvel em farmácia. A mudança trouxe, assegura convicto, «enormes vantagens» no que aos cuidados farmacêuticos diz respeito. Sobretudo porque sendo «uma farmácia de meio rural» tornava-se um complemento ao Serviço Nacional de Saúde (SNS). «Está disponível durante mais horas», explica o responsável. 

Mas os cuidados com quem procura ajuda vão muito para além do horário. Na Farmácia União, para o acompanhamento farmacêutico, cada paciente é convidado a sentar-se frente a uma mesa. Do outro lado está o farmacêutico, pronto a ouvi-lo com toda a atenção. Neste «atendimento sentado», como lhe chama Paulo Nogueira, «é garantida toda a privacidade necessária para que a pessoa se sinta mais à-vontade». «No fundo, é o que se passa num consultório», resume.

Para facilitar o entendimento, nesta zona, chamada de zona A, não se fazem pagamentos. «Há um delay». Apenas no final da consulta farmacêutica o paciente se dirige à caixa. 

Na zona B, são dispensados os cremes, os produtos de puericultura, alguma fitoterapia, os alopáticos.  

Esta revolução na forma de atender os pacientes de várias freguesias, 2.200 pessoas, entre Talhadas, Reigoso e Ribeiradio, a união de freguesias de Cedrim e Paradela e ainda Préstimo, em Águeda, implica a abertura de uma linha de «comunicação com os clínicos». «Sempre que necessário, escrevemos uma carta ao médico. Em caso de urgência, telefonamos», explica Paulo Nogueira. Um «mapeamento» da situação dos doentes, considerado precioso pelos médicos das redondezas.

 

O farmacêutico lembra o caso de um paciente de 52 anos a quem tinha sido prescrita uma dose alta de um antidepressivo. Como efeito secundário, passou a sofrer de disfunção eréctil. «Era uma questão de dosagem. Escrevi ao médico e, com a redução da dose, o problema ficou resolvido».

Há casos em que é o médico da extensão de saúde de Talhadas a pedir ajuda. «Tivemos um senhor de 68 anos, hipertenso, polimedicado. Detectámos valores fora do intervalo desejado. O médico alterou a medicação e contactou-me a pedir para medir a pressão arterial durante vários dias e em diferentes horas. Fomos nós que fizemos o seguimento e depois informámos», relata Paulo Nogueira. 

Para o médico da extensão de saúde de Talhadas, António Gonçalves, esta articulação «facilita bastante» o acompanhamento dos pacientes. «Sempre que há alguma dúvida, há um diálogo com os profissionais da farmácia», explica o clínico. Assim, continua, é possível «corrigir» a medicação quando necessário. 

Além disso, na zona «sempre que há uma situação aguda, a farmácia é muito procurada. Ou porque as pessoas têm tosse, ou dores. Quando a situação se arrasta, o farmacêutico encaminha para consulta».  

E, porque é de união que se trata, quando o paciente não pode vir à farmácia, vai a farmácia a sua casa. Explica Paulo Nogueira: «Contactam-nos, e nós vamos lá entregar». Com um custo simbólico (um euro), fazem atendimentos num raio de cinco quilómetros. A procura é grande: «Fazemos cerca de 40 entregas ao domicílio por mês». 

Perto das 13h, é hora de pegar no carro. A dona Fátima, que cuida de dois idosos, de 87 e 93 anos, aguarda a chegada de Susana. «Todas as semanas, telefono e peço que me tragam os remédios», descreve.

Hoje, Susana trouxe-lhe a medicação para a senhora Olinda que, além da diabetes, sofre de insuficiência cardíaca. Para a cuidadora, este é um serviço «essencial». «Não posso deixá-los sozinhos», explica. É para isto que a União serve: Para levar auxílio onde é preciso.



Farmácia Central: Acompanhamento diário

Dificilmente o senhor Álvaro sairia mais satisfeito da visita desta tarde à Farmácia Central-Cacém. No gabinete de atendimento personalizado, de sorriso aberto, a doutora Anita só lhe deu boas notícias. «A sua glicémia está óptima», indicou-lhe a farmacêutica. Os restantes parâmetros bioquímicos tiveram semelhantes resultados: os triglicéridos, o colesterol. «Está a melhorar, não está, doutora?», perguntou, bem-disposto, para confirmar. 

As boas notícias não ficaram por aqui: a massa gorda diminuiu, aumentou a muscular. Aos 70 anos, estas indicações são preciosas para Álvaro Figueiredo. «Sou diabético e é muito importante ir controlando tudo, pelo menos, uma vez por mês», confidencia. 

Não é que seja um paciente difícil. Toma toda a medicação indicada, faz caminhadas e ginástica, em dias alternados, como lhe indicaram na farmácia. «Aqui sou muito bem informado e aconselhado sobre os cuidados que devo ter». Incluindo no que diz respeito à alimentação. Aprendeu a fazer seis refeições por dia, a beber bastante água. E, além da diabetes, é importante controlar a ansiedade e a pressão arterial elevada. Mazelas que lhe ficaram dos tempos em que chegava a fumar «80 cigarros por dia». «E já deixei o tabaco há 31 anos!», orgulha-se.

A verdade é que, hoje, o senhor Álvaro sente-se bastante melhor que na sua primeira visita, há vários meses. É esse, precisamente, o objectivo do projecto de Implementação de Cuidados Farmacêuticos em que o septuagenário participou, que arrancou em Janeiro de 2015 na Farmácia Central, estendendo-se, para avaliação, até final de Junho do mesmo ano. 

Utente desta farmácia há 30 anos, cumpria todos os requisitos para participar no projecto: tinha pelo menos três patologias, tomava vários tipos de medicamentos e visitava a farmácia com frequência. Quando o convidaram, sentiu toda a confiança para aceitar. Tornava-se um dos 105 “embaixadores” dos cuidados farmacêuticos personalizados do Cacém, como lhes chama Luís Lourenço, o director técnico da farmácia a implementar o projecto, e um dos 70 a ter completado já o programa de três visitas previsto. «Continuei porque gostei. É importante para a minha saúde», explica.


 


A média de idades dos participantes está acima dos 65 anos; e a diabetes é uma das doenças mais reportadas pelos participantes, a par da pressão arterial elevada, da dislipidemia, a doença pulmonar obstrutiva crónica e a asma.

Logo na primeira visita, em que os pacientes são atendidos em dois gabinetes personalizados, os farmacêuticos conseguiram dados surpreendentes: 56% doentes asmáticos assumiram não aderir à terapêutica. «Muitas vezes, as pessoas não sabem exactamente como utilizar os dispositivos, os inaladores, os nebulizadores», explica Luís Lourenço, que coordenou o estudo. 

Pessoas com outras patologias também não aderiam à terapêutica. Aliás, 27 dos utentes revelaram, pura e simplesmente, não continuar a tomar a medicação – e alterar esta realidade foi um dos melhores resultados obtidos pelo projecto de cuidados personalizados. No final das três visitas, e após aconselhamento, a adesão era já de 81%.

Também os resultados dos parâmetros bioquímicos e fisiológicos melhoram. «A obesidade era um problema», comenta a farmacêutica Anita Silva, uma dos cinco profissionais da Farmácia Central a realizar este trabalho, referindo-se aos triglicéridos. «Tínhamos pessoas que apenas faziam duas refeições por dia». Estes hábitos mudaram com a intervenção dos farmacêuticos. E os benefícios na saúde sentidos pelos utentes fizeram com que mantivessem as visitas. 

«Agora, venho em Março», anuncia, antes de se despedir, com ar satisfeito o senhor Álvaro, saindo pela porta do gabinete branco, com um design clean e simples, e contornando os bonsais expostos em pequenos escaparates na Farmácia Central.



Rosa, a farmácia dos afectos​​​​​​


Esta história começa em 1958, ano em que o doutor Correia Rosa, farmacêutico amado nas Caldas da Rainha, decidiu criar o seu segundo projecto na periferia da cidade. Nascia a Farmácia Rosa, que se tornaria a única nas Caldas da Rainha a produzir medicamentos manipulados. «Quando alguém queria um remédio, e não encontrava, era sempre aconselhado a vir aqui. “A Farmácia Rosa deve ter”, diziam», conta Ana Catarina Afonso, a directora técnica. 

Passaram 92 anos. A cidade cresceu, rodeou a Rosa, e os serviços de que a farmácia dispõe cresceram também. Continua a dispor de manipulados, que manda fazer numa farmácia do Porto, para responder às expectativas dos pacientes. E passou a responder a outras necessidades: todas as quartas, há osteopatia, pelas mãos de Paulo, o «senhor dos milagres» que chegou há quase dois anos. De duas em duas semanas, também às quartas, há aconselhamento de podologia e, às quintas-feiras, de nutrição. 

Pelo meio, a Farmácia Rosa viveu a sua história, sempre à frente do seu tempo. Em 1991, tornava-se uma das primeiras do país ter sistema informático e, em 2008, um robô para sistematizar a dispensa farmacêutica. 

O “Zézinho”, como é ainda chamado por quem acorre à farmácia em busca dos seus conselhos, o senhor “Zé” Manel, como o tratam os colegas, conhece bem esta história. Tinha apenas 13 anos, um de trabalho árduo «a acartar móveis» quando o doutor Rosa acedeu ao pedido da sua tia para lhe dar ocupação. «Disse-lhe que eu era muito fraquinho para carregar os móveis e, assim que houve oportunidade, ele chamou-me», recorda. 

Demoraria anos a chegar ao balcão da farmácia. Começou a «lavar dez frascos por dia», que vinham do «esterqueiro da câmara». «Tínhamos de os pôr a brilhar. E não usávamos produtos, eram muito bem batidos com areia e água», lembra. Passou a fazer «paulatinamente, os pacotes com burato de sódio, tintura de iodo». Depois,  manipulados. As contas, todas à mão. Chegou a informatização, o robô, os novos serviços. «Pesei muitos miúdos. E agora peso os filhos», orgulha-se, aos 61 anos. 

Mas há outras contas. «Fiar quando as pessoas não podiam comprar os medicamentos e tinham de pagar ao mês ou ao ano». «Hoje», sente, é essa confiança que continua a trazer os antigos utentes à Farmácia Rosa.


Zé Loureiro, de 54 anos, entrou na história da farmácia de forma semelhante, tinha então apenas 14 anos. Lavou frascos, preparou pacotes, fez recados. Lembra-se de quando tudo era «avulso e os medicamentos eram pesados». Apenas cinco anos depois começou a servir ao balcão. Desde então, assevera, «mudou tudo na farmácia» menos uma coisa: «Além da confiança, a amizade». 

Catarina Tacanho, neta do doutor Rosa, comanda hoje o destino deste espaço de saúde. E terá herdado do avô o espírito «visionário». Implementou os serviços de aconselhamento: há o aconselhamento farmacêutico, de dermocosmética e de audiologia; investe em actividades de promoção da saúde, como o Mês dos Afectos, em parceria com a Administração Regional de Saúde; caminhadas em Maio, que chegam a juntar em convívio 300 pessoas, e cuja receita reverte para uma instituição de solidariedade social, as entregas ao domicílio. A lista de serviços é quase interminável. 

E inclui um serviço público tão importante como a presença na comunidade. Frequentemente, os profissionais da farmácia deslocam-se às escolas do primeiro ciclo da região para dar formação para a saúde. «Vamos falar sobre piolhos», conta Ana Catarina Afonso. «Ensinamos que nem tudo é para partilhar», descreve. 

Também se organizam formações sobre obesidade, vacinação ou diabetes infantil. 

A ideia é servir a população. Como acontece com o senhor Francisco, que vem à Rosa desde 2013. Entrega os pés «à doutora Ana Carolina», com toda a confiança. Outro paciente espreita pela porta, antes do tratamento. E brinca: «Isso é que é vida, hein?». Pergunta pelo senhor Zé Manel. Quer ser atendido pelo Zézinho da Farmácia Rosa.​