Política de utilização de Cookies em ANF Este website utiliza cookies que asseguram funcionalidades para uma melhor navegação.
Ao continuar a navegar, está a concordar com a utilização de cookies e com os novos termos e condições de privacidade.
Aceitar
1 março 2016
Texto de Filipe Mendonça Fotografia de Pedro Loureiro Fotografia de Pedro Loureiro Texto de Filipe Mendonça
«Ainda vou descer de rappel do tecto do Coliseu»

​Teresa Ricou já em criança tinha uma obsessão: transformar o mal-estar em bem-estar. Tornou-se Teté, a primeira mulher palhaço da Europa. Que comece o espectáculo.​​​​​​

​Revista Saúda - Teresa ou Teté?
Depende. É mais fácil ser Teté, porque temos de facilitar as coisas, não é? Mas não estou em pista, por isso o meu nome é Teresa Ricou.

Revista Saúda - Ricou não é apelido de palhaço. Como é que a família lidou com essa ideia?
[Suspira] Eles não tinham ideia. Nem eu. Isto foi uma coisa que me foi surgindo ao longo da vida, à medida que queria transformar o mal-estar em bem-estar, o pouco em muito. Quando estava de castigo nos colégios, transformava aquilo num grande arraial. Desde pequena que tenho esta coisa de fazer rir, de transformar as tragédias em coisas viáveis e interessantes. Fui percebendo que é a rir que devemos dizer aquelas coisas que as pessoas não gostam de ouvir. Tinha esse dom.

Revista Saúda - Mas de onde é que isso vem? Não foi educada para ser palhaça…
Fui educada para ser religiosa e a minha religião veio dar à arte. Nós somos uma família grande do Norte, da Granja, onde cada um nascia predestinado. Nasci para ser a rapariga religiosa, bem comportada, atenta, sempre pronta a ajudar, e tal... Mas corri África com o meu pai e com os meus sete irmãos, e isso deu-me uma perspectiva do mundo. Hoje sei de onde sou. Sou uma mistura entre o meu pai, médico franco-suíço, a minha mãe brasileira, a minha avó italiana…



Revista Saúda - Hoje sabe de onde é?
Ao fim de 33 anos de projecto, 40 de revolução e quase 80 de vida, estou a ver como volto a ser aquilo que devia ter sido e não fui: palhaço, a minha profissão, artista de circo.

Revista Saúda - Vai voltar à pista?
Quero e vou conseguir, não há dúvida. Ainda vou descer de rappel do tecto do Coliseu, tipo Mary Poppins. Quero descer de palhaço, de Teté, com uns sapatos  grandes, bonitos… Vamos ver é se não me estampo lá no final. [risos] Mas também já caí tantas vezes que não há-de ser esse o problema.
 
Revista Saúda - Quem gostaria de ter na primeira fila, no dia em que voltar ao Coliseu?
O circo é redondo, como o mundo. É a melhor metáfora da vida. Gostava de lá ter os putos todos que ensinei. Todos ali, a aplaudir, a perceber como é, e a dizer: “Afinal ela faz”. Falta-me ter essa oportunidade, de mostrar o que era a minha profissão, porque dei a minha profissão a outros. Ensinei.

Revista Saúda - Quando percebeu que queria ser palhaço?
Lá pelos 20, 21 anos. Estava a sair da TAP, fazia muita publicidade, andava no meio do cinema a animar aquela coisa toda. A verdade é que só descobri que estava na minha profissão no dia em que entrei no Coliseu com o senhor Luciano Nobre, o grande palhaço português e chefe dos “Faz Tudo”, tinha ele 80 anos. Trabalhei depois com o senhor Totó Campos e de seguida com o senhor Zeca Elizabete, os grandes do mundo do circo. No final resolvi ficar sozinha e descobrir em mim a mulher palhaço: a Teté. Já viu a volta que fui dar para chegar à Teté?
 
Revista Saúda - O que é que a maquilhagem da palhaço Teté esconde da Teresa?
Não esconde. Antes pelo contrário, embeleza-me. Gosto muito dessa máscara. Fico muito bonita pintada de palhaço, apesar de ser uma coisa muito simples e ter evoluído ao longo do tempo. Primeiro, tinha umas grandes bocas, uns olhos grandes e ainda usava calças, não tinha cabeleira. Depois arranjei uma cabeleira bonita, que se levanta quando me enervo e tal… Mas já não me lembro da última vez que me vesti de palhaço. 

Revista Saúda - O bem-estar do palhaço esconde alguma solidão?
Não sei se a solidão é própria do palhaço. O mundo das artes é um mundo onde somos obrigados a pensar, e quando se pensa não se pensa em conjunto, pensamos muito sozinhos. Portanto, qualquer artista acaba por ter momentos de grande solidão. Depois, o sucesso é perigoso. Eu apanhei um susto quando percebi que estava no topo. O Chapitô começou aí. Cheguei a um patamar tão elevado ao nível da comunicação e do sucesso, da inclusão social. «Ao fim de 33 anos de projecto, 40 de revolução e quase 80 de vida, estou a ver como volto a ser aquilo que devia ter sido e não fui: palhaço»

Revista Saúda - Qual é a fonte dessa energia? 
Vem da minha família, que me ajudou a ter um sentido muito prático e também muito espiritual da vida.  Eu não sou católica, mas tenho uma espiritualidade que me acompanha. Acredito nuns astros e numas coisas... E depois é a rua. Gosto muito de ir à farmácia – que é um sítio onde ainda há alguém que nos ouve, à mercearia, andar de bicicleta – de três rodas, para ir às pinhas – e andar a pé, porque a natureza também nos rejuvenesce muito. É importante dominar o nosso corpo, da ponta do pé à ponta da cabeça. Isso faz-nos estar de bem com a vida. A alma e o corpo são uma peça só. 

Revista Saúda - E descansa? 
Normalmente, nove e meia, dez horas já estou quase pronta para sair, mas às três, quatro da manhã ainda estou a pensar o que, e como, vou fazer no dia seguinte. Vivo entre as dez e as quatro da manhã. Durmo cinco, seis horas enquanto estou a trabalhar, porque tenho medo de falhar. Herberto Helder dizia-me muitas vezes: «Não tenhas medo, vai para a frente». Mas sim, sou uma pessoa da madrugada.

Revista Saúda - E à luz do dia, que projectos ainda quer pôr a andar?
A Universidade do Circo, por exemplo. É um espaço que tenho no porto de Lisboa e o projecto está pronto para arrancar. A ideia é fazer formação de circo a nível superior. Aliada a isso há também a intenção de lançar o Museu do Humor e do Riso, com todo o espólio que tenho.

Revista Saúda - Um palhaço envelhece?
É a única profissão em que podemos ir até aos cento e tal anos e nunca estamos velhos. E quanto mais velha, mais apurada a pessoa está. Os truques, por exemplo, demoram segundos a ser feitos e uma vida inteira a ser construídos. É a única profissão no mundo em que quem está do outro lado não se apercebe nem da nossa idade, nem de quem somos. Quem está do outro lado, acha que está sempre tudo a andar. Um palhaço não tem idade. Já eu estou em fase de transformação, até porque estou a caminho dos 80 [sorri, porque ainda faltam dez anos]. ​
Notícias relacionadas