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24 novembro 2015
  Livro

A História da ANF é a História das farmácias

​Exposição de motivos e bastidores de um livro factual, que relata as realizações mais surpreendentes da rede de farmácias, mas também o que correu mal.​​​

Já ouviu falar do “Grupo de Cascais”, constituído por jovens farmacêuticos que em 1974 impulsionaram a conversão do velho Grémio Nacional das Farmácias em ANF? Conhece a evolução do LEF, primeiro laboratório privado a avaliar a qualidade dos medicamentos? Sabe que o Cefar supriu uma lacuna, em matéria de informação sobre medicamentos na fase pós-comercialização? Sabe que a Farmácia Esperança, de Arronches, estreou em Portugal a emissão de receitas electrónicas? Que a milésima farmácia informatizada foi a Nova de Valbom, em Gondomar? Ou que as peças da lisboeta Farmácia Liberal, reproduzida no Museu da Farmácia, jamais podem ser alienadas, porque lhe foram deixadas em testamento?
Em larga medida, escrever sobre a História da ANF – ou, mais modestamente, contribuir para o seu conhecimento – é escrever sobre a História das farmácias portuguesas. Daí que tenham presença significativa no livro evocativo do 40.º aniversário da organização, que será apresentado a 15 de Outubro, em Lisboa.
 
Não é um registo laudatório, longe disso, o que se privilegia nesta obra. Seria, por certo, olhada com desconfiança, se pejada de auto-elogios. O esforço empreendido pelos autores consistiu em invocar a História tal como ocorreu – valorizando causas pelas quais a ANF se bateu, como a introdução de genéricos, e inovações de que foi responsável, como a informatização, mas também projectos que não alcançaram o sucesso esperado. O leitor avaliará se o objectivo foi concretizado.
 
Prefaciado por João Cordeiro, dirigente histórico da Associação, o livro organiza-se por blocos temáticos, encerrando com uma cronologia, em vez de proceder a um relato diacrónico. A opção, passível de obrigar a avanços e recuos na leitura, deriva do propósito de garantir uma melhor compreensão da forma como evoluíram os principais eixos de actuação da ANF – isto é, de consolidação do papel das farmácias na sociedade portuguesa.


​De fio a pavio ​
A criação da ANF representou um corte radical com o passado e marcou profundamente a construção do futuro da profissão e do próprio sector da saúde. Assim se justifica que o primeiro capítulo recue ao período do Grémio. Sob o salazarismo, a organização não detinha influência na definição das políticas de saúde, nem revelava tal pretensão. Ao introduzir uma visão profissional da farmácia, o “Grupo de Cascais” alterou esse paradigma. 

A matriz da Associação, que ainda hoje perdura, germinou no conturbado período pós-revolucionário: independência face ao Estado, já que nunca dependeu de subsídios; preocupação com a perspectiva profissional, de defesa dos interesses das farmácias, articulados com os interesses da população; gestão de crises através da identificação de oportunidades, ainda que seguindo o caminho mais difícil. Esta estratégia tornou a ANF um interlocutor do poder político tanto mais válido quando mais cientificamente fundamentadas se apresentam as suas posições. Assim se afirmou como instituição indispensável ao funcionamento do sistema de saúde, graças à disponibilidade para ajudar a resolver problemas que extravasam a sua dimensão de associação sectorial. 
Vertente fundamental da sua actuação, a responsabilidade perante a sociedade é desenvolvida no Capítulo 2. Recorda-se o envolvimento nas batalhas dos genéricos ou da DCI, a progressiva prestação de novos serviços pelas farmácias, parcerias estratégicas, como a consubstanciada na Plataforma Saúde em Diálogo. Mas também se contam as peripécias da complexa relação financeira com o Estado, desde os tempos do fornecimento de medicamentos a crédito até à criação da Finanfarma, passando pelo acordo de centralização de pagamentos na ANF, que tanto contribuiu para reforçar o seu poder. 

 As especificidades da estrutura orgânica da ANF, que evoluiu no sentido de aumentar a participação dos farmacêuticos, são o objecto do Capítulo 3. A dimensão associativa contempla também vertentes como a solidária, materializada no Montepio Nacional da Farmácia, primeira instituição mutualista constituída no Portugal democrático. 
O quarto capítulo concentra-se na abordagem profissional. As reuniões Difarma, fórum de reflexão sobre o papel do farmacêutico como especialista do medicamento, merecem destaque. Tanto como a formação contínua e as unidades científicas – Centro de Informação do Medicamento, Laboratório de Estudos Farmacêuticos e Centro de Estudos e Avaliação em Saúde. 
À intervenção no domínio da evolução tecnológica é dedicado o Capítulo 5. Foca-se no longo processo de apetrechamento tecnológico, em particular na informatização das farmácias. Desde o início encarada como instrumento de suporte à actividade profissional, contribuiu para a modernização dos serviços da Administração Pública neste plano. 
O Capítulo 6, sobre a aposta na cultura, sublinha a preocupação da ANF em preservar a memória da profissão farmacêutica e defender o património histórico. Daí que incida no Museu da Farmácia, único do género no mundo que é propriedade de uma associação patronal.  

Intitulado “Empresarialização e sectores de investimento”, o Capítulo 7 aborda as motivações que conduziram à criação do universo empresarial da ANF, bem como as parcerias estabelecidas e as participações sociais do grupo, hoje reunidas na Farminveste. As quotas detidas em empresas, como a José de Mello Saúde, a Alliance Healthcare, a Glintt e a HmR, enquadram-se neste bloco. 

 Pelas suas características, os dois capítulos finais obedecem a uma abordagem mais cronológica. O oitavo compreende o período entre 2002 e 2013, percorrido por tendências liberalizadoras, com forte impacto no modelo tradicional da farmácia de oficina. Termina com as movimentações contestatárias das farmácias, mergulhadas numa crise económico-financeira sem precedentes, e com a saída de João Cordeiro da liderança da ANF. Já no Capítulo 9, que grosso modo corresponde à presidência de Paulo Cleto Duarte, o tema dominante é a superação da crise, através da construção de um novo modelo, que pressupõe a valorização do acto farmacêutico. 

Carina Machado e Paulo Martins em entrevista à Farmácia Portuguesa «Há um grande preconce​ito em relação à ANF» 

Farmácia Portuguesa - Que ideia gostariam que as pessoas guardassem depois de lerem este livro? 
Paulo Martins – Gostávamos que este livro, sendo institucional, fosse encarado como um livro respeitável, no sentido em que não é uma obra para dizer que tudo correu bem, até porque há aspectos onde assim não aconteceu e essas histórias são contadas. É um livro real e eventualmente mais citável por isso mesmo. Independentemente daquilo que nos foi pedido, é preciso explicar que a estrutura do livro foi proposta por nós e houve total liberdade de execução. Ninguém nos disse: não falem disto ou daquilo, escrevam isto e não escrevam aquilo.  
Carina Machado – Seria também importante que as pessoas de fora do sector desmontassem aquela ideia maliciosa de que a ANF é um lobby poderoso, num sentido quase mafioso. Esta casa obviamente defende os interesses das farmácias, isso nunca foi escondido, mas teve sempre o cuidado de os alinhar com os interesses dos seus utentes. Claro que se fizeram disparates, são 40 anos de história. Mas há feitos extraordinários que não são reconhecidos ou sequer conhecidos porque há um grande preconceito em relação à ANF. 

Julgo que, de um modo geral, não se tem noção da real importância que as farmácias tiveram ao longo destes 40 anos. Por exemplo, durante muito tempo, as pessoas levaram para casa medicamentos comparticipados unicamente porque as farmácias suportaram os custos totais. Aliás, isso ainda acontece, veja-se o que se passa nas ilhas. Outro exemplo, o impacto do seu envolvimento no Programa de Troca de Seringas… 
PM – Ou da defesa dos genéricos, por exemplo. A ANF é que se bateu pelos medicamentos genéricos contra as outras classes profissionais. Os médicos colocavam reservas, a Indústria Farmacêutica também, mas foi a Associação que lutou para que hoje haja genéricos nas farmácias.   

FP - O que é que ficou por escrever? 
CM – Tanta coisa… Temos ali os principais marcos dos 40 anos da ANF, mas depois há muita coisa que só se pôde apanhar pela rama. Quantas páginas é que nós temos? 

PM – Cerca de 300 de conteúdo útil. Se seguíssemos a linha inicial, só o primeiro capítulo teria 160 páginas (gargalhadas), imaginem… 
CM – Eu até arrisco dizer que conseguiríamos fazer mais uns quatro ou cinco livros de dimensão igual e todos muito interessantes. Houve histórias que ficaram de fora e gente que não conseguimos ouvir. 

 FP - Quem é que gostavam de ter ouvido e não foi possível? 
CM – Muitas pessoas. Além dos que morreram, há muita gente que está viva e bem viva e que não tivemos oportunidade de chegar até ela, porque a partir de certa altura o projecto entrou numa velocidade muito grande e foi preciso parar a parte da investigação e começar a escrever.  
 
PM - É preciso dizer que os depoimentos enriquecem um livro como este, na medida em que têm memória e impressões. Se assim não fosse, seria uma coisa muito institucional… Citadas no livro devem estar cerca de 15 pessoas.   

 FP - Como é que se organizaram para escrever um livro a quatro mãos? 
PM – Fazer um livro a quatro mãos é normalmente difícil, mas neste caso nem por isso. Aliás, teve uma vantagem: a Carina conhece profundamente o sector e eu tenho uma visão exterior. Quando comecei não sabia nada de Farmácia, nem do sector em concreto e hoje ainda sei pouco (risos). Portanto, por um lado há o conhecimento técnico e por outro há o olhar exterior de quem tenta distinguir o que é relevante dou que não é. 

CM – O facto de ele ser alguém de fora desta caixa [do sector] obrigou-me a repensar muita coisa. Isso foi bastante interessante e enriquecedor. Trabalhámos muito bem em conjunto. 

FP - Qual foi a principal dificuldade? 
CM – A segmentação dos temas, porque tudo se toca, e a quantidade de informação dispersa. É muita coisa: são 40 anos! No arranque do projecto tivemos uma ajuda enorme do senhor Santos Costa, um dos maiores adeptos do livro, mas que, infelizmente, não conseguiu ficar entre nós para o ver materializar-se. Tenho muita pena. O senhor Santos Costa sabia onde as coisas estavam, sabia os números de cor, os nomes completos, os documentos, conhecia as ligações entre as pessoas… era um arquivo vivo. Quando ele morreu, ficou tudo um pouco mais difícil. Tenho aqui este armário cheio só com livros, dossiês e actas ainda do Grémio e dos primórdios da Associação. Conhecemos cada uma das suas páginas. 

PM – Por exemplo, estes são dois dos vários dossiês de genéricos, na prática lá dentro têm uma montanha de cartas que nada têm a ver directamente com genéricos. Ou seja, as coisas estão cá, mas onde? Isso é que foi difícil. 

FP - Houve alguma coisa que vos surpreendeu verdadeiramente durante a investigação? 
​PM – Surpreendeu-me alguns domínios que têm ver com a capacidade da ANF ser inovadora, nomeadamente na área da informatização. A ideia não foi fazer um livro de auto-elogio, mas evidentemente que há alguns aspectos que me surpreenderam e que estão relacionados com esse pioneirismo das farmácias, com uma certa capacidade para arriscarem. 

CM – Mesmo para quem conhece o sector, há muitas histórias que surpreendem, nomeadamente aquelas que têm a ver com a relação com o Estado e os governos. O que me admirou verdadeiramente foi o grau de veracidade da palavra da ANF em muitas ocasiões em que se poderia julgar o seu discurso exagerado, assim como uma certa ingenuidade, uma demasiada boa-fé que esta casa tem nos interlocutores e na garantia de concretização dos compromissos passados ao papel. De resto, para nós ficou clara aquela que será, talvez, a sua maior virtude: a capacidade de, com muito trabalho, transformar as crises em oportunidades.