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23 maio 2017
Texto de Sónia Balasteiro Fotografia de Miguel Perestrelo Fotografia de Miguel Perestrelo Texto de Sónia Balasteiro
12 anos de resistência

​​​​​​Na freguesia de Ponta do Pargo muit​as portas se fecham. Menos a da farmácia.

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Farmácia Portuguesa #220 Farmácias reais
Elisa Sardinha, de 82 anos, precisa frequentemente de ajuda: para pôr o PIN no telemóvel, para ir ao WhatsApp, ao Facebook… E é na Farmácia Ponta do Pargo que a encontra. «Costumo vir pedir ao senhor doutor», conta a anciã, que mora à frente da farmácia desde sempre.

Mesmo antes do serviço de saúde abrir, há 12 anos, já ela e o marido tinham a mercearia aberta. O pequeno comércio fechou entretanto, mas a relação com os farmacêuticos manteve-se. E é diária: «Venho todos os dias». São amigos. E recentemente, quando o marido, de 80 anos, caiu, foi o director-técnico da farmácia, Carlos Delgado, quem acorreu a ajudar.

Terra de 900 almas, segundo os últimos censos – embora o farmacêutico suspeite que esses números tenham já diminuído – a Ponta do Pargo é um lugar sossegado, isolado e de beleza inigualável numa extremidade da ilha da Madeira. As falésias debruçam-se sobre o mar, em namoro divino, e a vegetação é bela e generosa.

Antes da farmácia se ter instalado aqui, a população era apenas servida por um posto farmacêutico, que abria uma vez por semana. O que significa que os utentes tinham, na maior parte das vezes, de se deslocar à Calheta, a alguns quilómetros, quando precisavam de medicamentos. Isto para quem tinha carro.

No virar do milénio, surgiu um projecto para a freguesia: criar uma via rápida, campo de golfe, hotelaria e todas as condições que atrairiam os turistas para a zona. A Farmácia Ponta do Pargo abriu portas nessa altura, com base nesse pressuposto. Houve negócios de terrenos e foram construídos túneis e infra-estruturas, mas o projecto nunca avançou. Muitos foram embora.

A farmácia, porém, mantém-se aberta. Serve a população desde 2005, dando-lhe acesso à saúde. A seu lado há uma clínica médica e Carlos Delgado não se inibe de afirmar que isso ajuda a farmácia a manter-se à tona.  Mas não só: «Somos completamente dependentes de parcerias. De outro modo não sobreviveríamos».

Exemplo dessas parcerias é o trabalho desenvolvido com a Santa Casa da Misericórdia de Machico, imprescindível também para o director clínico da instituição. Segundo explica Miguel Homem Costa, «definimos que íamos utilizar genéricos e o doutor Carlos ajuda-nos na aferição dos preços. Ele é muito proactivo e este serviço é mesmo importante», sublinha.



Mas o dia-a-dia da Farmácia Ponta do Pargo faz-se sobretudo de relações de vizinhança. Gorete Pontes, que tem um salão de cabeleireiro ali ao lado, foi a primeira cliente. «Tinha muitas receitas para levantar e esperei que a farmácia aqui abrisse», conta a utente. A opção era ir mais longe, à Calheta. Vem quase todos os dias à farmácia.

É saudável aos 57 anos, mas tinha uma tia acamada, de 81. Agora, tem uma prima, de 92 anos, que necessita de ajuda. «Também tenho um vizinho que me pede.  E temos de ser uns para os outros», explica. Gosta dessas visitas frequentes. «Levo tudo daqui. Eles são bons, são simpáticos». O que faz com que este seja o primeiro lugar onde vem caso tenha um problema de saúde, para pedir aconselhamento.

Carlos Delgado, de 38 anos, veio do Funchal para abrir esta farmácia. Gosta do relacionamento com os utentes. «Conhecemos toda a gente e há uma relação muito próxima. Aqui é bastante diferente. Há imenso respeito pela nossa profissão, consideração. Sentimo-nos valorizados».



O ambiente é rural e a população envelhecida. A maioria dos clientes vive da agricultura. «Há algumas dificuldades económicas com que temos de lidar», diz Carlos Delgado. Também há iliteracia.

Armando Pestana é mais um cliente desde a abertura. Sempre que ele ou a mulher precisam, é aqui que vêm. «São boas pessoas e a vinda da farmácia para aqui veio facilitar muito a nossa vida». É também o atendimento a atrair Fernanda Pereira, de 64 anos. «Gosto muito de vir aqui e é óptimo já não precisar de ir à Calheta», atesta.

Apesar das dificuldades, a Farmácia Ponta do Pargo tem mais duas farmacêuticas nos quadros: Irene Faria e Rosa Sardinha. «As pessoas são muito simples», refere Rosa. O aconselhamento farmacêutico não pode cingir-se aos medicamentos. É preciso ouvir as pessoas, dar atenção aos seus problemas e necessidades. Ao balcão, «nós, farmacêuticos, temos de ser um pouco psicólogos de quem nos procura».



Além da freguesia, a farmácia serve os utentes das localidades mais próximas que escolhem deslocar-se à Ponta do Pargo para ser atendidos. Leonardo Barreto, diabético de 57 anos, do Estreito da Calheta, tem de vir com frequência por causa da sua doença. «Sempre que me vai faltando a medicação, venho cá. E, além disso, esta é a minha farmácia preferida. Dou-me bem com toda a gente e confio neles», conta. Como acontece entre bons vizinhos que se conhecem há muito.
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