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10 novembro 2015
Texto de Filipe Mendonça Texto de Filipe Mendonça Fotografia de Tiago Machado Fotografia de Tiago Machado

«Sou um provocador»

​​​​Acorda todos os dias para ir «para a festa». É assim que vive a televisão. Ser conhecido é sonho de criança. Provocador, sempre, porque «ser consensual é uma maçada».

Chega de táxi, à hora marcada, mas salta do carro como se tivesse o mundo à espera. É a vida de quem anda há mais de 20 anos ao ritmo dos programas da manhã televisiva. Do ponto de encontro ao local da entrevista são 1.500 metros mal medidos. «Vamos a pé», dispara o homem que não gosta de fazer exercício. Duas horas depois volta a entrar no mesmo táxi. «Um dia destes vou tirar a carta. Estou cansado de andar à boleia». Foi assim que se despediu.
 
Revista Saúda - A que horas acordou hoje? 
Manuel Luís Goucha - Seis e quinze da manhã, como todos os dias, excepto sábados e domingos. Mas hoje só dormi quatro horas porque ontem tive programa à noite.

RS - São quase quatro e meia da tarde. Qual é o segredo dessa energia?
MLG - Ser muito feliz naquilo que faço. Acordo todos os dias para ir para uma festa. Ninguém me tira três horas de felicidade [no programa Você na TV] por muito más que sejam as opiniões que depois incendeiam as redes sociais. Ninguém me estraga a festa. Sempre quis esta vida. Foi a vida que escolhi. O facto de fazer televisão, e de me sentir quase a planar durante aquelas três horas de programa, faz com que não me sinta cansado. 

RS - E o que faz para renovar essa vitalidade? Desporto? Toma suplementos?
MLG - Não faço exercício. Quando muito bato claras em castelo, mas já nem isso porque uso batedeira [risos]. Sou incapaz de ir para um ginásio, porque não concebo a ideia de pagar para suar. Ter de me despir, suar, tomar banho entretanto, vestir-me outra vez… isso é uma canseira, ainda mais a pagar. Não faz de todo o meu género [risos]. E suplementos alimentares também não tomo. O meu suplemento de energia é ser feliz naquilo que faço.

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RS - Foi sempre assim?
MLG - Desde que me conheço. Sempre disse que queria ser conhecido, o que é uma coisa estranha. A minha mãe lembra-me muitas vezes que quando me perguntavam, aos cinco anos, «o que é que o menino quer ser quando for grande?», eu dizia «conhecido». É estranho. É uma necessidade de afirmação. Hoje em dia, qualquer pai que ouvisse isto levava a criança a um pedopsiquiatra [sorriso e silêncio]. Mas sim, comecei a fazer teatro, depois televisão… Estamos a falar dos últimos 30 anos. Não é muito se soubermos que tenho 60, mas há aqui metade da minha vida que está cheia daquilo que gosto de fazer: comunicar, ouvir pessoas, contar “estórias”…

RS - Quem vive nesse ritmo, como é que lida com a falta de energia? Com a doença, por exemplo…
MLG - Às vezes sinto necessidade de parar, mas é raro. Sou um mau doente. Se tenho muita energia, quando aparecem sintomas que inibem essa energia sinto-me contrariado e lido muito mal com tudo aquilo que me contraria.

RS - O tempo também nos contraria. Tem medo do efeito do tempo? 
MLG - Não acho muita graça ter 60 anos [gargalhada]. Já sou um sexagenário [gargalhada], mas gosto da maneira como estou a envelhecer. É uma aprendizagem. Continuo a fazer televisão. Tenho ainda três anos para fazer programas diários. Depois, quando acabar o contrato com a TVI, em final de 2018, logo se vê. Apetecia-me ter programas semanais, programas mais culturais, conversas… saborear a televisão de outra forma. Envelhecer com projectos não me assusta. Não vou envelhecer sentado no sofá, a ver televisão, com uma mantinha em cima das pernas. Vou ter projectos, espero, até ao último dos meus dias.

RS - É um homem de extremos? 
MLG - Não. Não sou é um homem consensual. Acho isso confrangedor e pouco estimulante. É uma maçada. Eu sou um provocador e os meus extremos começam a encurtar-se com a idade. Envelhecer é isso: estar mais atento aos sinais da vida, aos pormenores, saborear tudo…

RS - Como é que cuida de si? 
MLG - Lendo muito, estando muito atento aos outros. A minha grande qualidade é ser muito curioso. Tenho de entender sempre onde estou e o que ando aqui a fazer. Depois, é ler, viajar… É através da arte que me alimento. É esse o património que não é hipotecável e que ninguém me tira, a não ser uma demência. O meu grande património é aquilo que já vi, o que já li e ouvi, as salas onde já escutei ópera, onde já vi bailado… É assim que me alimento e cuido de mim.

RS - E deixa que cuidem de si?
MLG - Não [resposta rápida seguida de silêncio]. Não deixo nada [risos]. Sou eu que tenho de cuidar de mim e controlar tudo o que me diz respeito.

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RS - Mas as farmácias existem para cuidar…
MLG - Não sou hipocondríaco, mas gosto de farmácias. A farmácia presta o mais importante dos serviços: ouvir. Muitas vezes, as pessoas vão à farmácia para desabafar. Nos meios mais pequenos, a farmácia tem essa dimensão social. Importante é manter o lado humano da farmácia: ouvir o senhor e a senhora mais velhos com aquele carinho, aquela atenção… Assisto a pessoas que vão à farmácia apenas para desabafar. É importante para o seu equilíbrio.

RS - Aos 60 anos já fala em equilíbrio? É sempre um equilíbrio instável. As coisas têm corrido bem e tenho feito os possíveis para esse equilíbrio não desandar.
MLG - A idade deu-me o poder de relativizar as coisas. Conseguir distinguir o que é importante, ou não, é a chave para o tal equilíbrio, a paz... Mas atenção: não sou um homem em paz. Sou um homem em paz comigo, mas sempre muito inquieto.

RS - Está preparado para o dia em que se apagarem as luzes?
MLG - Acho que estou, mas não sei [solta uma gargalhada]. Creio que ainda tenho um prazo de validade interessante na televisão, mas no dia em que se apagarem as luzes tenho muita coisa para fazer: livros para escrever, a área da culinária para explorar. Posso empenhar-me a sério em causas como fazer campanha contra a violência doméstica, por exemplo. Há tanta coisa em que posso ser útil sem ser debaixo dos holofotes. 
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