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17 dezembro 2016
Texto de Pedro Veiga Fotografia de Pedro Loureiro Fotografia de Pedro Loureiro Texto de Pedro Veiga
«O Avô Cantigas é uma pessoa verdadeira»

​​​​​​​​​​​​​​​O Pai Natal de Portugal existe mesmo.

Revista Saúda - Quarenta e cinco anos de carreira, trinta e cinco dos quais vestindo a pele ao Avô Cantigas. Valeu a pena?
Carlos Vidal - É óbvio que valeu a pena. Ao fazer uma reflexão sobre a minha actividade ao longo dos anos, o saldo é bastante positivo em todos os aspectos. Profissionalmente, tem sido um percurso onde me tenho sentido realizado porque as coisas me correm bem.

RS - A nível pessoal também? 
CV - Sem dúvida. Nunca se pode dissociar este percurso da parte espiritual. Muitas vezes, deparamo-nos com situações em que estamos a fazer um trabalho onde não estamos felizes. E, nesse aspecto, o saldo ainda fica mais positivo, já que me sinto muito feliz por fazer o trabalho que faço.

RS - Há algum ingrediente especial para essa felicidade?
CV - Tem muito a ver com as crianças. Como é uma coisa próxima delas, é assim como um papel de embrulho que aconchega tudo de uma forma fantástica. E, depois, eu sou aquilo que sou. Embora o Avô Cantigas tenha uma vestimenta, uma roupagem própria, a personalidade do Avô Cantigas não vem escrita em qualquer argumento. Deixo-me ser como sou, e, sendo assim, o Avô Cantigas ganha uma pessoa verdadeira e eu, por ser verdadeiro, ganho o facto de poder gostar do que faço.

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RS - Isso ajuda a explicar a longevidade do Avô Cantigas? 
CV - Sim, de certa forma. Vivemos num momento em que as coisas são, muitas vezes, tipo chiclete: mastiga e deita fora. Se o Avô Cantigas surgisse hoje, penso que estaria condenado a não ter uma carreira tão longa, porque mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, mudam-se os processos. Quando eu aparecia na televisão, todas as pessoas estavam a ver-me. Milhões de pessoas. E, de certa forma, isso ajudou-me a entrar na memória colectiva do povo português.

RS - Até hoje.
CV - Até hoje, sim. O segredo é esse mesmo, é o tempo ter passado. O que aconteceu foi que essas crianças que, quando o Avô Cantigas apareceu pela primeira vez, essas crianças tornaram-se rapazotes! Rapariguitas e rapazes. E, uns anos mais tarde, adolescentes, depois jovens adultos, sempre com o mesmo carinho e o mesmo sentimento pelo Avô Cantigas. Depois casaram-se e tiveram filhos. É para essas crianças que eu canto hoje.

RS - E com bastante sucesso.
CV - Os vídeos do Avô Cantigas têm milhões de visualizações em sites como o YouTube. É verdade. Tenho vários videoclipes com muitas, mesmo muitas visualizações. Por exemplo, há pouco tempo fui repescar aquele êxito do Zé Barata Moura, o "Fungagá da Bicharada", e esse vídeo tem mais de nove milhões de visualizações. Depois gravei outras que têm quatro milhões, outras três milhões e tal. Aquilo é um fenómeno que faz com que as músicas sejam mesmo populares e eu esteja bem enraizado entre as crianças portuguesas ainda hoje.

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RS - Vai voltar a ter uma época natalícia cheia de concertos...
CV - Sim. É um período especial no calendário. E porquê? Porque, se virmos bem, no centro de tudo, estão as crianças. A começar por uma bem especial, o menino Jesus. As pessoas ficam melhor, mais queridas, menos voltadas para as zangas. E como 'quem meus filhos beija, minha boca adoça', quando nos espectáculos canto as minhas canções – que até podem não ter nada a ver com o Natal, mas que têm que ver com assuntos que deixam as crianças felizes – isso leva as pessoas a ter um espírito mais positivo.

RS - Para dar vida ao Avô Cantigas ao longo de mais de duas décadas, deixou de fazer outras coisas na música. Ficou algum arrependimento?
CV - Nenhum. Eu não sei o que teria andado por aí a fazer se o Avô Cantigas não tivesse tomado conta da minha área profissional a 100% como tomou. Seguramente teria ficado ligado à música e teria continuado a gravar os meus discos. Mas quais? Isso não sei. Eu não andei aí a tentar gravar outros discos, gravando paralelamente ou fazendo sair para o mercado um disco do Carlos Vidal. Se tentasse, e não tivesse conseguido, poderia ter dito que se fechou esta ou aquela porta. A verdade é que não tentei. 

RS - Não sente, então, que o facto de fazer música para crianças tenha levado, de alguma forma, à infantilização do seu processo criativo?
CV - Nenhuma mesmo! São canções que têm letras dedicadas às crianças, mas cujas melodias e arranjos orquestrais poderia dizer-se que são de canções normais – alguns rocks, algumas baladas, alguma música ligeira, alguma música popular – há de tudo. Eu gosto de tentar ser moderno nas coisas que faço, mesmo o Avô Cantigas nos discos que faz hoje tem arranjos actuais. É um Avô todo 'p’rá frentex'.

RS - Ainda lhe falta fazer alguma coisa?
CV - Acabei recentemente um ciclo. Sinto que cheguei a um ponto em que experimentei vários projectos que correram bem. Tenho trabalhado bastante nos últimos anos de modo a manter-me presente perante o público. Agora é tempo de um ciclo novo. Acabei de produzir novas canções e vamos aproveitar o 35.º aniversário do Avô Cantigas para divulgar esse trabalho, que passará, obviamente, pela edição e espectáculos ao vivo, mas também por outras áreas às quais o Avô Cantigas pode estar ligado, mas que não tínhamos feito.

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​​​​RS - Por exemplo?
CV - Sem querer revelar demais, hoje em dia o universo das crianças é muito amplo, mais vasto ou vai muito para além da música. E o Avô Cantigas, enquanto figura popular no meio das crianças, pode evidentemente movimentar-se para outras áreas e usar outras ferramentas que não as cantigas.

RS - Já vi que não quer revelar muito...
CV - Dou-lhe um exemplo: eu gosto muito de atletismo. Imagine usar essa capacidade para organizar uma manhã linda de Primavera, com as crianças a praticar desporto e em movimento. E mais não digo.