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1 dezembro 2015
Texto de Carlos Enes Fotografia de Tiago Machado Fotografia de Tiago Machado Texto de Carlos Enes
«Choro a ver as notícias em casa»

​​​​​Clara de Sousa: jornalista na televisão, atleta no ginásio, treinadora na cozinha.

Retrato vital da legítima representante de uma linhagem de mulheres com garra.

Revista Saúda - O que gosta de fazer no ginásio?
Clara de Sousa- Pesos, corrida, crossfit, musculação, alongamentos, faço isso tudo. O necessário para me manter com alguma elasticidade e sem dores nas minhas articulações. Tenho um personal trainer há oito anos, que é meu osteopata também. Posso dizer que tive uma reversão de sintomas dolorosos nas articulações, que começaram há alguns anos, e hoje, graças ao ginásio, a mexer-me e a fazer os exercícios certos, já não sinto dores. 

RS - Tem uma relação de confiança com o personal trainer?
CS - Quando tenho alguma dúvida sobre alguma parte do meu corpo, uma articulação, um tendão, é com ele que falo. Evita quaisquer exageros, é médico osteopata. Adoro fazer musculação, acho que tenho uma força descomunal e ele está sempre a tentar refrear um bocadinho o meu ímpeto, senão ainda faço alguma lesão. Baixa-me os pesos. Faço mais repetições, para acautelar esse risco.

RS - Esse acompanhamento é decisivo para si?
CS - Quando vejo as pessoas no ginásio com posturas erradas, a fazerem pesos excessivos, lamento, porque vão desenvolver problemas no futuro. Há pessoas saudáveis que se estragam no ginásio porque não fazem as coisas como deve ser. 

RS - O factor saúde também pesa na sua alimentação?
CS - A expressão que costumo usar não é alimentação saudável, mas alimentação equilibrada. Acho um erro pensar-se: «Ah, agora só posso fazer uma alimentação super saudável». Isso só prova que nos andámos a alimentar mal durante muito tempo. Por que não hei-de comer umas batatas fritas de vez em quando? Ou aquele bolo de chocolate cheio de calorias num dia especial? O problema não está nas receitas, está nos comportamentos. É óbvio que, se partilho uma receita para um dia especial, a receita é mesmo para um dia diferente, não é para fazer todos os dias, nem todas as semanas.
 
RS - Faz dietas?
CS - Faço as minhas dietas, não faço dietas loucas. Aliás, tenho determinados hábitos. Por exemplo, não faço hidratos em todas as refeições. Prefiro comer uma proteína com legumes e ficar bem. Às vezes, até posso pôr um bocadinho de arroz, outras não. Mas também posso fazer uma refeição só com um prato de massa. Vou gerindo e mantendo este equilíbrio. Faço um bocadinho uma navegação à vista. Mas se precisar de perder um quilo ou dois, consigo perdê-los. Não consigo é perdê-los numa semana. Tem de haver bom senso. 

RS - A cozinha é a sua forma de jardinagem?
CS - É aquele meu momento em que estou eu e os ingredientes, estamos ali numa fusão interessante, a ver o melhor que sai de nós.

RS - E consegue desligar do fluxo de notícias?
CS - Consigo, consigo. Bem, muitas vezes tenho uma televisão em fundo, mas pontualmente consigo desligar. E há momentos em que ponho apenas música e nada mais. Até porque não é numa manhã que a realidade me vai fugir de forma irremediável.

RS - Como aguenta dar todos os dias notícias tão más: crise, desemprego, refugiados, mais crise, anos a fio?
CS - É um peso, não é? Ao longo dos anos, acabamos por nos habituar. Não ficamos indiferentes, mas habituamo-nos a fazer um relato de uma forma que não nos destrua interiormente. Enquanto telespectadora não consigo, choro imenso a ver notícias em casa. Quando me coloco na pele de profissional, jornalista, que tem de apresentar um noticiário em representação de uma redacção, de colegas que estiveram a preparar uma série de notícias, sou mais do que eu própria, ganho uma força superior à minha circunstância individual.

RS - A jornalista profissional toma conta da situação…
CS - Não quer dizer que já não me tenha acontecido, num momento de maior distracção, ser muito afectada em directo, mas consigo, apesar de tudo, controlar. Já me ri, descontroladamente, no ar, duas vezes na minha vida. Já chorei uma vez a sério, ao ponto de quando aquilo acabou se notarem os riscos das lágrimas. Uma vez. Entre-Os-Rios. Sou uma pessoa muito emotiva, mas quando estou na posição de representar uma redacção consigo ter essa força de forma natural, mas não sei traduzir por palavras. 

RS - Onde vai buscar essa força?
CS - É interior. Para mim é uma coisa natural, já está cá dentro desde criança. Tem que ver com a transmissão de valores, com a forma como fui criada e educada. Lembro-me muito dos meus pais. Éramos uma família de classe média, baixa até, não havia fiambre nem queijo flamengo. Eles conseguiram construir uma casa. Sempre que olhava para os meus pais via-os lutadores. Lembro-me da minha mãe fazer um baptizado para trezentas pessoas dois meses antes de morrer, já com o cancro disseminado e a faltarem-lhe as forças. Sempre os vi assim, nunca os vi a desistir. E a minha avó era exactamente a mesma coisa. Venho de uma linhagem de mulheres com garra, de mulheres fortes, e elas foram sempre o meu exemplo.

RS - Foi a rádio que a levou a ser jornalista ou o contrário?
CS - O meu caminho era ser professora e a rádio veio baralhar tudo na fase mais importante da minha vida. A rádio chegou nesse momento decisivo, cinco minutos antes da encruzilhada. Ainda tentei pôr um pé em cada caminho durante um tempo. Mas depois não dava. A rádio encarregou-se de tomar conta da minha vida. O jornalismo só surgiu quando foi necessário escolher, em 1992, porque fui convidada para directora de informação. Se não tivesse sido, continuaria a fazer os programas, a gravar publicidade e a ler notícias em antena.

RS - Gostava de fazer animação? 
CS - Sim, gostava de tudo. Na verdade, a minha base é a comunicação. 

RS - E na SIC, como é?
CS - Gosto de levar um pouco de alegria ao meu local de trabalho. Nós vivemos sempre com aquela pressão da actualidade, a crise, os refugiados. Isso também pesa. Por isso, levo uns docinhos para a redacção. Enquanto há um docinho, as pessoas parece que descomprimem. Pelo menos, naquele momento descomprimem. Há uma gargalhada, uma brincadeira, um momento bom.

RS - Mas, depois, de volta à crise…
CS - Crise, refugiados… Deixe-me aproveitar para dizer uma coisa importante para mim, que me está a incomodar neste momento. Lamento muito que algumas pessoas usem a crise como argumento para uma atitude fechada em relação aos refugiados. Não percebo como se perdeu desta maneira o valor da vida. Nós temos em Portugal pessoas que também tiveram de fugir de África. Já imaginou aquelas pessoas, a fugir sem nada, a arriscar a vida, com os filhos atrás? Não se pode usar como argumento os sem-abrigo, como se estivéssemos a comparar coisas comparáveis. Faz-me muita confusão.
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